 © Pere Planells Sagrada Família Barcelona
À sombra da Sagrada FamíliaO que Margarita Farré, catalã de Barcelona, vivendo e trabalhando em São Paulo desde 1957 tem a ver com Fídias, Gaudí e Camille Claudel? Muito. Todos são escultores. Margarita Farré também é.
Ao observar suas esculturas, principalmente os grupos escultóricos em que predomina a monumentalidade, pensei em Fídias. Lembrei-me das descrições de Júpiter no Olímpia, de Minerva no Partenon. Esculturas colossais. 12 metros de altura cada uma. Esculpidas em marfim e ouro. O corpo em marfim. As vestes em ouro.
Imagens de Fídias que vi no British Museum nos frisos conhecidos como os Mármores de Elgin, pilhados da Acrópoles, reproduziam deuses mitológicos vivendo situações humanas. As mesmas que encontro nas figuras de Margarita Farré.
Não são em marfim, nem em ouro, mas têm no bronze polido, patinado, pintado, a mesma motivação que levou Fídias a imortalizar nos mármores deuses tomados por desvairadas paixões por seres humanos.
É fundamental olhar as esculturas de Margarita Farré com atenção, sem pressa, sem idéias preconcebidas. Van Gogh uma vez disse que gostar de sua pintura de chofre, de pronto, não tinha o menor sentido.
Acho que no caso de Margarita Farré também não tem. É preciso ver suas esculturas sem precipitação. Captá-las em sua essência com olhar demorado, tranqüilo, quase preguiçoso.
Às vezes os olhos levam ao gesto. É imperioso tocá-las. Apalpá-las, acariciá-las. Sentir os volumes, as curvas, o côncavo e o convexo, o vazio e o cheio das formas, a temperatura, a energia, a vibração do metal.
E Gaudí, o que tem a ver com tudo isto? Como entra nesta história?
Imaginem uma menina em Barcelona brincando entre esculturas em um terreno ao lado da Sagrada Família de Gaudí.
Empilhadas a céu aberto, dezenas de esculturas do mestre faziam parte das brincadeiras das crianças da vizinhança.
Uma delas em forma de caracol, espiralada, era a favorita de Margarita. Subir por seus anéis, escorregar, fazia parte de seus jogos infantis, de suas correrias entre as esculturas talhadas em pedra.
Na Sagrada Família, no Parque Guell, na Casa Milá, Gaudí tinha um outro peso. Mas ali, ao lado da igreja, tinha a mesma importância de suas bonecas, do jazz que seu pai tocava no piston, da música de Casals no contra-baixo, do gosto do creme de brazo de gitano comido com prazer. Fazia parte do seu dia-a-dia.
Não é necessário recorrer a Freud. Todos sabemos que muito do que somos e fazemos está profundamente arraigado no que fomos e fizemos em nossa infância.
Não sei se Margarita já se deu conta de que à sombra da Sagrada Família seu destino de artista foi traçado. Provavelmente nunca pensou que a primeira escultura que criou e assumiu em 1975, uma pedra bruta em que fincou semi-esferas de aço, tem raízes em Gaudí e na contemporaneidade das esculturas pluralistas dos anos 70.
Abstração pluralista das mais puras revela uma das tendências da época, a pluralidade e a diversidade dos materiais e o informalismo das propostas.
Margarita Farré, se quisesse, poderia explorar essa linha ao infinito. Não quis. Não se deixou seduzir pela facilidade expressiva do suporte e muito menos pelo modismo plural.
Não se limitou. Não se deu ao luxo de dizer como Picasso, “não procuro, acho”. Procurou, procurou muito. Procurou sem parar até dominar o seu metiê.
Hoje, cada vez mais Margarita Farré é uma escultora que alia à criatividade, técnica impecável.
Ousada, das escultoras que conheço, é a única que se atreveu a pintar seus bronzes. Os gregos dos tempos de Fídias pintavam mármores.
No ateliê do Alto de Pinheiros vi esculturas pintadas de vermelho, de amarelo, de branco.
Com a mesma desenvoltura com que poli, patina, pinta bronzes, cria esculturas que fariam Gaudí, Dubuffet, aplaudir sem restrições.
Reunindo pedaços de madeira tosca, bruta, de obras em construção Margarita Farré cria formas que se inserem na arte bruta e no pluralismo dos anos 70.
Na base de madeira, talvez um dormente de estrada de ferro, ou viga de telhado, a escultura em madeira natural, grossa, rude, sem qualquer acabamento é um achado surpreendente.
E Camille Claudel? Como fica?
Sempre que vejo fotos das esculturas de Camille não posso deixar de pensar na jovem irmã de Paul Claudel, poeta e diplomata, que serviu no Rio de Janeiro, e no tumultuado romance que Camille viveu com Rodin.
Nessas esculturas, Camille transfere para o gesso, para o bronze, o sensualismo do relacionamento aluna e mestre. Explícito, mas sutil. À flor da pele. Bem diferente daquele que se pode ver em "O Beijo", de Rodin.
Essa sensualidade também está presente nas mulheres de Margarita Farré. Nos casais que se acariciam, se aconchegam é visível, palpável.
Entre as escultoras, não conheço nenhuma que tenha abordado as relações mulher-homem com a compreensão de Margarita Farré.
A maioria ignora. É como se o amor e o sexo não existissem.
Margarita, não. Seus homens e mulheres não são assexuados. Seus sentimentos, emoções e desejos fazem parte de seu universo escultórico.
Os títulos das obras não deixam dúvidas quanto a isso: "Namoro", "Romance", "Eva", "Uma Mulher", "Espera", "Felicidade", "Ternura".
Sozinhas ou com seus homens, as mulheres de Margarita, através da postura, da linguagem do corpo, falam de amor, de sexo, de entrega, de cumplicidade. Cumplicidade que Camille queria de Rodin, mas não teve.
Em Margarita Farré mulher e homem, macho e fêmea se entendem. Às vezes um leve toque, uma caricia é suficiente. Pleno. Intenso. Revelador.
Há também nessas mulheres de braços erguidos, mãos na cabeça, no colo, de olhos no vazio, no chão, de pernas que se abrem ou se entreabrem ou se fecham, intensa expectativa.
Captá-la é mérito de Margarita Farré.
Fídias, Gaudí e Camille. Grécia, Espanha e França. Era preciso ir tão longe, tão distante, para escrever sobre as esculturas de Margarita Farré?
Era. Quando se trata de arte não há distância. Muito menos limite. Em arte o tempo e o espaço não existem.
Poderia ir até a Idade da Pedra. Estabelecer paralelos com a Vênus de Vilendorf, passar pela Vênus de Milo e pela Vênus de Médici. Por que não? Foram esculpidas por homens.
Agora se trata da visão de uma mulher. De Margarita Farré. Até onde irá, não sei. Mas tenho certeza de que não ficará se repetindo, fazendo variações de um tema só. Em um beco sem saída.
Se pelo dedo se conhece o gigante, pela escultura se conhece o escultor. Não hesitaria afirmar que Margarita Farré ainda vai nos surpreender muito. Afinal, não se brinca entre esculturas de Gaudí impunemente. Margarita Farré sabe disso.
São Paulo, 7 de abril de 2002
Carlos von Schmidt
Curador e crítico de arte
 De Pernas pro Ar
alumínio tinta automotiva
30 x 32 x 27 cm 2001
É proibido proibir. Tocar é necessárioHá mais de dez anos a artista plástica, pintora e escultora Margarita Farré declarou:
“Esculpo a figura humana: homens, mulheres, crianças, porque esse é o tema a que todos os outros são redutíveis. Seus corpos, suas emoções, em suma, a simplicidade.”
Depois de tecer considerações sobre a inspiração, de falar do gesto de esculpir, arrematou:
“Nunca perco de vista o espectador, aquele que verá a obra e, conhecendo-a, irá se reconhecer.
E, talvez, nesse reconhecer-se tente, também, prolongar-se, com os dedos de sua mão, tateando a escultura, tornando-a parte de sua própria extensão.
Essa é a recompensa, saber que alguém sucumbiu à tentação do toque, estendeu a mão e encontrou a mão do artista em um gesto de aceitação.”
Essas palavras de Margarita Farré são de outubro de 1991, quando expôs na galeria André, da Alameda Gabriel Monteiro da Silva em São Paulo.
 O Sonho
alumínio tinta automotiva
14 x 36 x 12 cm 2001
Dia 12 de maio do corrente, na galeria do Conjunto Cultural da Caixa, de Brasília, a declaração de Margarita fazia jus à informação na parede, na entrada da exposição Personagens, que dizia: "Pode tocar à vontade".
E as pessoas tocavam. Apalpavam. Acariciavam. Compraziam-se.
Cansado de ver, em nossos museus e nos do exterior, avisos para não tocar, não fotografar, não filmar, senti prazer, a alma lavada, em ver o que vi.
Gostei também de ver gente de todas as idades e condições lendo na parede o texto acima publicado.
Além do que penso da obra de Margarita Farré as opiniões dos críticos de arte Radha Abramo, José Neistein, Mario Garcia Guillén, Flávio de Aquino, Enock Sacramento e Josette Balsa, são reveladoras.
 Solidão
alumínio tinta automotiva
16 x 29 x 19 cm 2001
Suas esculturas têm força e monumentalidade latente. Radha Abramo.
Excelente escultora, com senso do monumental e do heróico.
Essa arte rara, hoje em dia, que é a escultura tradicional – mas não acadêmica -, tem nesta espanhola de Barcelona que vive em São Paulo um exemplar raro e destacado. Flávio de Aquino.
Suas peças nos falam de solidão e família, de reflexão e abandono, de entrega e de aconchego, do amor e da problemática feminina.
A obra de Margarita Farré dispensa explicações pelo poderoso magnetismo e soltura com que a mesma se apresenta. Mario Garcia Guillén.
 Felicidade
alumínio tinta automotiva
16,5 x 23,5 x 22,5 cm 2001
O tema único da obra de Margarita Farré é o ser humano, seu condicionamento social, seus inter-relacionamentos pessoais, sua individualidade, suas emoções, seu mundo interior, sua sexualidade.
As esculturas de Margarita revelam desejo de captação explícita, simbólica ou estilizada, de aspectos fundamentais de nossa experiência existencial, da euforia à distensão. José Neistein.
Os casais colocam em relevo o êxtase da aproximação, do encontro, da entrega e da troca. Margarita sabe que a vida é a arte do encontro e procura com seu trabalho despertar as pessoas para essa verdade fundamental. Enock Sacramento.
Margarita Farré cria seu mundo e nos revela os mistérios e os significados de sua sensibilidade e de sua reflexão.
Podemos explorar esse mundo, olhando e pensando. Ele oferece um interesse contínuo, variável e infindável. Josette Balsa.
Carlos von Schmidt
São Paulo 26 de julho de 2003 13horas 40
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