Pelados no parque e bandidos no Masp2002 foi um ano marcado por exposições instigantes e por uma Bienal não muito. Não pretendo fazer um balanço do que aconteceu nos museus e galerias, mas houve de tudo.
Mostras significativas e simplesmente medíocres. Além do mais essa coisa de balanço de fim de ano tem mais a ver com armazém, loja, do que com arte.
Em vez de relacionar todas as exposições que vi durante o ano, as que amei e as que detestei, prefiro falar de duas experiências que vivi ligadas à arte. A primeira foi em abril, no Ibirapuera. A segunda em junho, no Masp.
Na madrugada de 27 de abril, cheguei ao Ibirapuera às 4,20. Os portões do parque ainda estavam fechados. Desci do táxi no portão 3, na Avenida Pedro Álvares Cabral.
Ponto de mulheres da vida, gays, lésbicas, travestis e tutti quanti. Ali começa o que o pessoal que freqüenta o parque à noite, de madrugada, chama de Autorama.
O nome não tem nada a ver com corrida de carros, mas sim com o interminável desfile de automóveis dirigidos por homens e mulheres em busca de sexo. Quando acham, estacionam o carro e transam ali mesmo.
“Você viu?” perguntou-me curiosa a jornalista e fotógrafa Rita Feital de Nikon em punho, já imaginando fotos escandalosas e impublicáveis.
“Não Rita, não vi. Não sou louco nem voyeur obcecado por casais transando em carros. Se a curiosidade matou o gato que dizem ter sete vidas, imagine eu, de câmera na mão, bisbilhotando no escuro, atrás do carro.”
Contei essa história no texto que escrevi naquele dia e que está em meu site no www.art-bonobo.com.
Na versão que artes: mostra hoje fiz algumas modificações e correções. A novidade é que anexei ao texto as fotos que fiz no amanhecer daquele dia.
Sem pretensões outras senão documentar um momento único em minha vida e na História da Arte brasileira.
Quanto à segunda experiência foi à tarde no Masp. Estava lá quando quatro ladrões disfarçados de lixeiros entraram pelos fundos do restaurante, de arma na mão, fizeram reféns, limparam o caixa e se mandaram. Quando a polícia chegou com grande barulho e aparato, os lixeiros já tinham se escafedido.
Das obras que vi, dos textos que escrevi, das curadorias que fiz, guardo boas lembranças. Mas, estar às 4,30 da madrugada, no Ibirapuera, sob a luz da lua, sentindo a relva molhada nos meus pés me deu a sensação plena de fazer parte do universo.
Carlos von Schmidt
26.12.2002. 19,30h
Tunick na escadaO título deste artigo poderia ser também Os Nus de Tunick ou Nus na Madrugada dois. Por que 2? Porque em 8 de julho do ano passado escrevi Nus na Madrugada. Sobre a foto de nus que Tunick fez em Friburgo na Suíça.
Naquela ocasião minha referência foi uma notícia e uma foto. Hoje, 27 de abril, fui verificar no Ibirapuera como o fotógrafo norte-americano Spencer Tunick , de New York, faz suas fotos com centenas, milhares de pessoas nuas.
Desde que escrevi sobre a foto de Friburgo fiquei curioso. Sabia que Tunick fotografa quando amanhece. Foi assim em todos os lugares. A convocação nos jornais informava que com frio ou calor, sol ou chuva os interessados deveriam estar no Parque do Ibirapuera , entrada pelo portão 2, às 5 da madrugada.
Um kiwi, uma banana , uma ameixa e um suco de laranja foram meu café. As 4 um táxi me pegou. No céu lua-cheia iluminava a noite. Quente. Gostosa. Parque D. Pedro, Anhagabau, buraco do Ademar/Maluf, 23 de Maio. Tudo livre.
Às 4,20 estávamos em frente do portão 2. Grupos barulhentos esperavam . O portão seria aberto as 4,30. Seguimos para o portão 3. Dispensei o táxi e esperei. Enquanto esperava observei a barraca da frente. Vi também duas prostitutas e dois rapazes rindo muito e dançando.

Um carro parou perto de mim e um rapaz de no máximo dezoito anos perguntou: “o velhão, tem aí uma camisinha pra me emprestar?” Disse que não. Tinha duas. Sei lá se era camisinha mesmo que ele queria. O guarda do portão perguntou se ia participar da foto. Disse que não. “Sou da imprensa”, falei.
Britanicamente as 4,30 o portão foi aberto. Fui direto à portaria. Não havia ninguém. A Bienal só abriria às 9 horas. Funcionários de plantão me informaram que o pessoal da imprensa da Bienal estava lá pras bandas do portão 2.
A foto do Spencer seria feita perto da Oca. Fui em frente. Há muito não andava a essa hora da madrugada. Sentia o molhado do orvalho na grama através do tênis. Respirava o ar puro com prazer. À medida que me aproximei da Oca risadas e gargalhadas se faziam ouvir.
Carros, motos e uma do tipo Easy Rider, Sem destino, aquela do Denis Hopper entravam e estacionavam. O clima era de festa. Há os que vieram para participar da foto, os que vieram para ver, a trabalho, entre eles, eu, e os que vieram para se exibir.

Uma ruiva tingida, super maquiada, toda de preto, com capa preta, em cima de saltos altíssimos, vira notícia. É fotografada, filmada, entrevistada.
Outra, tipo modelo, loira alta, fause maigre. coxa à mostra , veste um modelito entre o vermelho e o rosa e trás na cabeça um quede da mesma cor. O short justo torneia bem as pernas e o bumbum. Também se transforma em foco de atenção. Travestis? Talvez...
Se uma girafa chegasse naquela hora em que nada acontecia de verdade, também seria entrevistada, fotografada e filmada.
Em frente à Oca sob a luz de um poste o pessoal da imprensa da Bienal organiza-se para credenciar jornalistas,fotógrafos, cameramen. Alguns fotógrafos carregam alem do costumeiro equipamento, escadas de vários tamanhos e materiais.
Recebo minha credencial adesiva autocolante. Verde musgo claro. Em destaque em preto, IMPRENSA. Em letras menores, Performance Spencer Tunick 27 de abril 2002.

Somos informados que Tunick fará três fotos. Uma atrás do Museu de Arte Moderna, no estacionamento, outra entre o MAM e a Oca, sob a marquise e a terceira na grama perto de uma escultura antes do portão 2.
A informação revela um novo dado para mim. Não se trata de uma visão única mas de várias . Não sei se nas outras performances isso aconteceu. É novo. O jornalista da Bienal pede aos fotógrafos e aos cameramen para não focalizar genitálias em close. Risadas e piadas .
Às 5 da madrugada o número de participantes é grande. Há mais homens do que mulheres. A proporção é de mais de dez homens para uma mulher. Seguranças fazem uma barreira sob a marquise. A massa humana se esparrama a partir dela.
Participantes continuam a chegar sem interrupção.O policiamento é pesado.A equipe de produção, todos de camisa azul, através de megafones informa que os participantes precisam assinar uma autorização.
Sem a autorização não há participação. O número de participantes cresce. Calculo a grosso modo mais de mil. Aqui e ali uma mulher. Só ou acompanhada. Casais, alguns. Sempre jovens. De mãos dadas.
Ansiosa, nervosa, excitada à massa reage rindo, gritando, movimentando-se, fazendo graça. Fico sabendo que a primeira foto esta marcada para a 6,25. Ao amanhecer, ao clarear, o primeiro clic de Tunick será disparado.
A barreira se abre. A produção dirige os participantes para o espaço atrás do MAM. Pede que se sentem no chão para ouvir as instruções. Imprensa e público se espalham junto ao gradil que nos deixa a 20, 30 metros dos que vão se despir.
A piada do dia é um jornalista que se infiltrou entre os futuros nus e que se despe e quer entrevistar Tunick. Dois guarda o trazem nu para nosso lado. Ó rapaz está desempregado. Foi seu jeito de chamar a atenção. De protestar. Cria um pequeno tumulto. Com suas “vergonhas” à mostra corre de lá para cá, de cá para lá. Conseguiu seus quinze minutos de fama.

Entre as 6 e 6,25 a lua desapareceu por trás dos eucaliptos do parque na direção oeste sobre a Vila Nova Conceição. Amanheceu.
Tunick, de camisa preta, calça caqui, em cima de uma escada de uns cinco ou seis metros de altura dirigi-se aos participantes. Explica que o que estão fazendo é arte. Lembra ao público que os participantes merecem respeito.
Depois explica como é que cada um deve se portar: “Não quero ninguém de pulseiras, relógios, brincos, óculos, chapéu, meias ou perucas”. Risada geral.
Em seguida pediu que todos tirassem a roupa. Assim que a tradutora fez o pedido, cada participante despiu-se colocando as vestes e pertences à frente.
Eram 6,48. O silencio era total. Em pé, nus, mais de mil pessoas se entregavam aos nosso olhares cúpidos, críticos, desdenhosos, invejosos, respeitosos, maldosos e sabe-se lá quantos outros adjetivos mais. E claro aos de Tunick. Ao de sua câmera ou câmeras, duas Pentax.
O ruído irritante do rotor do helicóptero da Globo interrompe e atrasa a primeira foto. Ao meu lado um rapaz xinga: “Vênus prateada o caralho. Vênus de merda.” À minha frente a repórte do Jornal Hoje, o cameraman e o caboman se mancam.
Finalmente o helicóptero desaparece. Tunick volta a falar: “Não fumem”, risadas, “não abram as pernas, não levantem os braços. Por favor esqueçam as posições estranhas da ioga.”

Obedecendo às instruções os nus dirigiram-se para o local da foto atrás do MAM , próximo à Bienal. Ali permaneceram e foram fotografados deitados, seguindo as instruções de Tunick de cima de um improvisado palanque em uma empilhadeira bem mais alta do que a escada.
Com pequenas variáveis as outras fotos foram feitas . Deitados no cimento da marquise ou na grama do jardim os nus se fundem como um todo. Perdem a individualidade.
Deixam de ser homens, mulheres e passam a ser gênero humano. Massa anônima que se dilue no aglomerado dos corpos anônimos.
Agora são 17 horas e 20 minutos. Há doze horas não tinha vivido a experiência que vivi. A performance de Tunick, considerado pela polícia de New York personna non grata, por causa de seus nus na rua, me fez pensar no ser humano e no que se transformou.
Vi mais de mil pessoas se despirem, andarem nuas fazendo as fotos por mais de duas horas, Tudo correu bem. Às 8 da manhã cada um tomou seu caminho.
Não fui à entrevista coletiva que Spencer Tunick deu depois das fotos. Não tinha nada a perguntar. As performances me bastaram. Enriqueceram.
Carlos von Schmidt
27 de abril de 2002
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