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Um esconderijo para sonhos de amor e desejo

Entrevista de Eric Kroll com Chas Ray Krider


ERIC KROLL: (Estou andando pelo estúdio de Chas, vendo e perguntando coisas. A ampla sala tem duas mesas próximas às amplas janelas frontais e uma pequena área de cozinha. Atrás, seguida de um banheiro e de frente, um quarto dos fundos cheio de coisas. No andar debaixo tem um porão escuro, frio e úmido com mais coisas – álbuns, móveis, jogos, etc).

ERIC KROLL: Porque você vive em Columbus, Ohio?

CHAS RAY KRIDER: Eu não moro aqui. Eu moro na minha imaginação...

EK: Este lugar parece estar preso no tempo e não necessariamente em um bom tempo. Estou confuso.

CRK: Aos 20 anos pedi carona ao redor do país. Morei na Flórida. Morei na Costa Oeste, na Costa Leste. Viajei e tentei mudar de lugar, mas eu sempre voltava para cá porque nunca tive de manter um emprego. Não tenho um emprego fixo há 30 anos. Além do mais, eu sou daqui.

EK: Quando você fez sua primeira foto de garota?

CRK: Comecei a fotografar depois de me formar na faculdade. Fazia fotografia de rua. Eu achei que ia expor em galerias. Sobrevivi de trabalhos temporários... assistente de fotografia, frentista, fotógrafo free-lance.

Agora não faço mais fotografia comercial. Ao começar essa coisa de motel, simplesmente ignorei o resto. Eu trabalhava para agências de publicidade.

Figuras sexies estavam em tudo o que eu fazia. Quando estava na minha fase de fotografia de rua, não importa em que cidade eu estivesse, eu me via rodando pela barra pesada da cidade.

Lá onde ainda havia teatros tipo strip tease e galerias de nus. Estava sempre fotografando vitrines de lingerie e calcinhas. Ia simplesmente nessa direção.

Eu tinha um estúdio onde podia levar mulheres e fazer Gustav Klimt , uma espécie de merda romântica. Por volta de 1980, quando o punk e a new wave estavam acontecendo, eu fiz uma série de fotografias baseada num calendário pin-up. Foi só mais uma coisa artística, com pretensões a expor.

EK: (vejo uma escada aberta para uma abertura escura). E o que é isto?

CRK: Esta é a Terra que o Tempo Esqueceu.

EK: (descemos a escada escura): “Holy shit fuck!” Têm ratos aí embaixo?

CRK: Não (rindo). Eu nunca vi um rato na minha vida.

EK: (Pego uma pilha de álbuns, pergunto): O que são?





CRK: Eu colecionei todas estas coisas porque sou apaixonado pelas imagens . Eu tenho uma outra série de fotografias chamada “Bachelor Pad Pop Art” , onde peguei capas de discos, coloquei-as juntas para ter esta estranha e sexual justaposição. Coloquei objetos por cima delas.

EK: (Começo a rir desta divertida criatividade. Este cara não para. Olho ao redor e preocupo-me com o possível dano para os discos causado pela umidade do porão). Onde você guarda seus negativos?

CRK: Na minha casa. Guardo tudo lá.

EK: (Chas separa bem o estúdio da casa . Ele para de trabalhar no estúdio quando escurece. Daí vai pra casa e trabalha no computador).

CRK: Eu não faço nenhuma cópia aqui. Não faço nenhum trabalho . Aqui eu só fotografo . Guardo tudo em minha casa.

EK: A imortalidade é importante pra você?

CRK: Sim. Eu penso sobre a imortalidade o tempo todo.

EK: Você acha que suas fotografias vão sobreviver?

CRK: Agora que eu tenho essa coisa com a Taschen.(Benedikt) Taschen é o vampiro da arte.. Ele vai me morder no pescoço e a minha arte vai ser imortal.

As pessoas me perguntam se eu estou entusiasmado por fazer o livro? Eu respondo que não estou entusiasmado realmente. Estou aliviado, pois o trabalho será visto em um mundo maior.

EK: O que Ellen, sua esposa, acha das fotografias femininas?

CRK: Ela é designer gráfica e eu a conheci quando trabalhava em uma revista de arte. Ela sempre soube. Eu acho que se eu não tivesse transformado isso em uma carreira, melhor que minha total obsessão, talvez ainda estivesse tentando. Você sabe que quer que sua arte saia da moldura e às vezes isto fica um pouco complicado.

EK: (Ando pelo estúdio e vejo mais e mais trabalhos).: Agora eu entendi. Muitos trabalhos. Sem parar. Sempre fotografando. Sempre criando. Como isso evoluiu para a série do motel?

CRK: Eu comecei em 95. Abandonei completamente o caminho para a galeria de arte e decidi que iria fazer apenas imagens que me interessassem. Imagens com muito sexo.

É o seguinte: eu fotografo num estúdio e não queria fotografar mulheres com uma forma de corpo nebulosa. E isso não diz respeite só ao corpo.

Isso diz respeito ao contexto no qual você vai encontrar a pessoa. Estava muito interessado no plano de fundo. A superfície onde a pessoa está. Eu queria fazer imagens que fossem criveis, que pudessem realmente acontecer.

Então, eu as coloquei em um contexto com o qual todos os leitores estão familiarizados, que é o quarto de motel. Luz e luminárias. Quando os leitores olham minhas fotos, já estiveram naquele lugar.

EK: Mas as imagens têm um clima antigo. 1950, 1960? Relembram outros tempos.




CRK: De certo modo sim, porque este é o tipo de coisa que eu encontro nos brechós. Eu não estou criando os 50. Não tem nada dos 50 nas minhas fotos, além das cores, e algumas lingeries. A maior parte das coisas, como você pode ver, é de mobília dos anos 70 e das piores dos anos 80.

EK: Mas nada é novo, nada é de agora. Por quê isto?

CRK: Porque isto é o que eu posso comprar barato.

EK: Eu não acredito nisso. Eu acho que tem muito mais aí do que só o que você pode comprar. Minhas fotos se referem às mulheres com quem eu também perdi minha virgindade – saltos altos, cintas de época, cabelos provocantes.

CRK: Sim, eu tenho uma afinidade com essas calcinhas e cintas, entrando com eu entrei, no final do mundo da cinta.

EK: Não vejo nenhuma meia-calça.

CRK: Não, eu nunca me interessei por meia-calça. Acho que estou realmente descobrindo os anos 60. Aqui no Midwest ir a um brechó é uma diversão.

Faço isso há trinta anos, e há vinte comecei a colecionar cintas e calcinhas sem uma razão particular. De algum modo quando me meti nessa coisa de motel tinha um guarda-roupa completo.

EK: Foi aí que a ficha caiu?

CRK: Em um universo maior ? Foi a primeira coisa que eu fiz que, de repente, pessoas de fora desta cidade se interessaram. E isso porque o código de sedução e fetiche é uma linguagem internacional.

EK: Como você chegou à revista Taboo?

CRK: Uma ex-moradora de Columbus, Cynthia Patterson, conhecia o meu trabalho e sabia da minha história com o motel. Eles disseram que estavam afins.

Mexeram em tudo e pegaram tudo que podia atrair a multidão. Então, publicaram na Taboo. Foi o que realmente deu início a história toda.

EK: Daí você começou a voar para lá para ser fotografado?

CRK: Não, você sabe que a coisa toda é estritamente especulativa. Eles gostaram do meu estilo e pareceu ser a solução mais lógica ir e fotografar algo.

Eu queria a ação. Eu queria os modelos e falar com as pessoas sobre fetiche e fotografia. Você não pode falar sobre seu trabalho aqui.

Então, eu fui e disse: “vocês escolhem os modelos e eu pago os modelos, a maquiagem artística, estúdio e tudo mais. Se vocês comprarem, legal”. A primeira vez fotografamos em um motel e depois num estúdio.

EK: Como você criou o clima de um motel em um estúdio?

CRK: Primeiro nós pensamos que íamos fotografar em um motel e pesquisamos 20 ou 30 motéis em Los Angeles. Eram todos umas merdas. Cor ruim, tudo ruim.

Nós acabamos fotografando em um com carpete e lâmpadas bege. Não tinha nada. Sem cor. Você sabe. Depois, compramos um tapete, fomos a brechós e pegamos algumas luminárias e fiz o que fiz aqui.

EK: Quais são alguns dos fotógrafos que o influenciaram? Paul Outerbridge, obviamente.

CRK: Sim, Gibson, Helmut Newton, Man Ray, e todos os pintores surrealistas. Eu acho que você estuda toda aquela história da arte e um dia para.

Fica lá dentro. Um dia sai. Se eu estou fotografando a pessoa no estúdio e não no motel, então é muito Horst, muito Man Ray.

Tecnicamente, quando ele fotografa com condições de baixa luz, as exposições são longas e conseqüentemente os modelos tem de ficar imóveis, o que contribui para o momento congelado. Mulheres bonitas como still-life, natureza morta.

Uma coisa curiosa que acontece durante o processo é se eu não disser nada a elas ou tento fazer algum projeto, elas começam a entrar no que eu chamo de seus níveis mais profundos de personalidade. Rapidamente, elas não estão mais projetando o que realmente são e este é o momento que eu realmente gosto.

EK: Isso lhes dá personalidade ou lhes tira a personalidade?





CRK: Neutraliza. Cria uma qualidade ambígua para o leitor. É esta tensão psicológica e sexual que muitas pessoas vão pegar quando virem meu trabalho. A linguagem do corpo e a postura do modelo.

Ela realmente não parece estar mostrando isto, então, esta é a questão – quem é ela? O quê? O quê? O quê? As pessoas vão dizer que o meu trabalho parece fotografia still tiradas de um filme de ações desagradáveis ou que acabaram de acontecer.

Aquela imobilidade e isolamento de De Chirico ou de Edward Hopper talvez seja a razão de estar aqui (em Columbus, Ohio) neste meio-ambiente. Onde estou alienado e isolado.

EK: (Pergunto sobre umas poucas fotos que mostram pernas ou mãos de homem perto de uma mulher).

CRK: Muitos leitores acham que as mulheres estão no quarto de motel sozinhas, fazendo aquilo sem motivação. Eles não imaginam que obviamente tem uma outra pessoa no quarto, dividindo aquele momento.

É o fotógrafo invisível pedindo para o modelo fazer coisas particulares e torna-las pública, ou você, o leitor, dividindo aquele momento íntimo com esta mulher?

EK: (Krider produz outro trabalho por hobby. É uma série de capas imaginárias de Pulp Fiction que ele intitula “Faux Fiction”. São imagens que ele fez e adicionou títulos e observações. Olho fotografias de vários modelos que ele fotografou e pergunto de onde vem um modelo, uma morena particularmente atraente. Olho a foto de uma mulher com calcinha, seios à mostra).

EK: Esta calcinha é uma obra prima.

CRK: É uma obra prima. A rotina é a seguinte: eu não tenho uma idéia na cabeça. Não sei o que vou fazer. Esta mulher está vindo pra cá. Tudo o que eu quero é um pequeno gancho para pendurar a câmera. Então eu vou ao K-Mart e pego seis pacotes de calcinhas.

Quando ela chega aqui, o que vou dizer a ela é para trocar as calcinhas periodicamente. Então, pela rotina, vai de florida para rosa para azul. Mantém-se em movimento.

EK: Quando você começou a fotografar mulheres assim você fazia mais com garotas de collant...

CRK: Sim, no começo eram os collants, cintas e saltos-altos que me atraiam e então, durante o processo eu descobri que calcinhas pequenas poderiam me interassar mais. Eu gosto desse véu. Este vendo e não vendo.

Isto dá ao modelo um senso de dignidade ou modéstia. Talvez eu esteja me tornando preguiçoso e não queira mais arrumá-las ou vesti-las.

EK: Como você lida com a situação de um modelo que traz o namorado?

CRK: Se isso os ajuda a ficar mais à vontade , tudo bem. Geralmente o cara vai ficar entediado e dorme depois da primeira foto. Não encorajo isso porque realmente acho que os modelos vão mais fundo e um pouco mais adiante se não tiverem outra influência controladora.

EK: (Chega a senhorita K para ser fotografada. Ela já fora fotografada por ele)

CRK: Começo procurando por uma solução de luz. Isso varia cada vez. Uso isso? Quero um uma luz de cima ? O que funciona com este modelo?

EK: E a música está sempre tocando?

CRK: Está. Eu vou colocar a música certa.

EK: Como você sabe que é a música certa?

CRK: Eu tenho meu lado motelesco. É a trilha sonora de muitos filmes. Música em surdina. Para entrar em transe. Eu tento hipnotizar os modelos.

(Saindo do banheiro/camarim vem Miss K, pronta para ser fotografada)

Miss K: Oi.

EK: De quem são essas calcinhas?

Miss K: Dele.

EK: E aquela bituca de cigarro? Você, Chas colocou ali ou foi ela?

CRK: Estava ali. Geralmente se minhas modelos fumam eu as encorajo a faze-lo.

(A modelo está nua, de calcinha e maquiagem. O cenário está pronto).

CRK: (Falando com a modelo) OK. No geral é o seguinte: eu sugiro uma pose, você a segura até que eu diga para se mover, porque movimento a câmera ao redor para fotografar diferentes ângulos e então edito o que funcionou melhor.

EK: (Após trocar a música ele fala comigo)

CRK: OK, começa devagar, às vezes pega um pouco de velocidade até percebermos para onde está indo.

EK: (Escuto batida de jazz saindo dos alto-falantes. O vibrafone traz de volta um outro tempo. Uma escova corre pelo prato do címbalo. No piano a repetição de uma frase adiciona e subtrai. Vejo tons quentes nos grandes seios da moça. Ela está imóvel).

Chas se ajoelha para ajustar os pés da modelo e então volta para câmera. Ele abaixa o tripé, mas mantem as pernas do tripé em níveis diferentes. A câmera fica em um ângulo estranho. Ele muda as perspectivas. Está próximo da modelo.

Observa sempre sua forma, a mensagem que a posição do corpo está passando. Abaixa uma luminária de brechó no tapete , para que a luz venha de baixo.

Chas começa a mover a lâmpada ao redor e observa como os movimentos da luz mudam a aparência da moça. O vibrafone abafa quase tudo que ele diz a modelo. Ouço “ um, dois, três”. Mas, Chas está dirigindo uma torrente constante de palavras a modelo .

O clima pinta. Lânguido, fácil. O sax domina. Luz baixa. Jazz ao fundo.

A luz do dia funde-se com o anoitecer no outro lado da sala.

Chas está fotografando e diz alguma coisa para Miss K . Então vira para mim e diz: “essa é minha frase favorita“. O blues não me deixa ouvir.

EK: Qual é sua frase favorita?

CRK: OK, vamos tirar o sutiã.

A entrevista de Kroll foi traduzida pela fotógrafa Paula Ragucci com texto final de Carlos von Schmidt.





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