Outros artigos

Galerias de Arte recebem o grafite...sobre tela
Irving Penn
Chegada a Madri
Além do Sol Nascente
Caciporé e a Bienal
Marcel Duchamp & Maria
A vida imita o cinema
Grafiteiros na Tate
Fotografias dão o que falar
Virginia Costa em Londres
Aberrações
Béjart. O último passo do mestre!
Kama Sutra e Bienal
O mundo de Antonioni
Gênios ao telefone
Hemingway e Marlene Dietrich
Truman Capote nu e cru
Truman Capote nu e cru (parte II)
Necrópole imperial no estacionamento
Coquetéis Molotov Contra Nudez
Recuperaram O Grito
Nus de Modigliani
Aos pés da Torre
Negritude de Picasso
Dalí na mira
Dali Libertino & Surreal
Kubrick: obsessão e minúcia
Botticelli em Paris
Yoko Ono nua e crua
Silêncio loquaz
Guggenheim: a novela chega ao fim?
O Brasil na Bienal de Veneza
Arrivederci Veneza, goodbye, Paris, au revoir...
Grafiteiros em alta
Niemeyer em Londres
Dissecando Kubrick
A crueldade do movimento
Objetiva Almodóvar
Chiclete incômodo
Qualquer semelhança não é mera coincidência
 
Simone de Beauvoir 1950

Simone Nua & Crua


A foto de Simone de Beauvoir nua, publicada na capa da Ilustrada, da Folha de S. Paulo, de 30 de maio passado, mexeu comigo. Deve ter mexido com muita gente. Afinal é a foto da musa existencialista, do ícone feminista, da autora de O Segundo Sexo, “da bíblia feminista”, da parceira e “mulher” de Sartre.
É estranho ver Simone de Beauvoir nua, como playgirl, coelhinha da Playboy, em um banheiro, prendendo o cabelo, de costas para a câmera. Bonnard teria adorado. Fazia seu gênero. Mulher nua no banheiro. A foto foi tirada em 1950 por Art Shay, fotógrafo norte-americano. Revela que o fotógrafo privava da intimidade de Simone. Para ela foi uma molecagem, uma travessura de Art. Simone estava com 42 anos. Já tinha escrito O Segundo Sexo e se apaixonado por outro americano, o jornalista e escritor Nelson Algren.

A reação que tive ao vê-la foi totalmente diferente da que tive em Paris em 1988, na casa de Catherine Millet quando vi na parede as fotos de Catherine. Nua. De costas, de frente, de lado, de pé, sentada, deitada. Tiradas por Jacques Henric, seu marido, escritor e fotógrafo. Não me surpreendi.

Catherine foto Jacques Henric

Catherine é uma intelectual. Crítica de arte, diretora de redação da revista Art Press, foi curadora da delegação francesa na 20ª Bienal de São Paulo, em 89. Eu fazia curadoria internacional.

Doze anos depois, em 2001, seu livro, A vida sexual de Catherine M. com ela nua, sentada, de costas, mão no cabelo, belíssima foto de Henric, na capa, foi o escândalo literário do ano. Não pela foto, pelo texto.

Penso nas duas fotos, no livro de Catherine e não posso deixar de refletir sobre o existencialismo praticado por Simone e Sartre e Catherine e Henric. Embora tenham pontos em comum diferem em gênero, número e grau.

É claro que o tempo de Simone e o tempo de Catherine são diferentes. Simone enfrentou o radicalismo e o reacionarismo da sociedade burguesa francesa, nos anos 30, 40, 50 e depois. Catherine está mais próxima dos nossos dias.

A experiência existencial vivida por ela, com a anuência e participação de Henrie, sua determinação em fazer de seu corpo o que quisesse, entregando-se entre quatro paredes e nos bosques de Boulogne, de Vincennes e outros espaços públicos, a centenas de homens, a maioria desconhecida, em termos existenciais reduz brutalmente a de Simone e de Sartre.

À medida que tomei conhecimento da vida amorosa e sexual de Sartre e Simone, dos envolvimentos de ambos, da bissexualidade dela, a impressão que tive foi de déjà vu. O fantasma de Laclos e de Les Liaisons dangereuses, As Relações perigosas, pairava sobre os dois. O de Sade também. O de von Sacher-Masoch, idem.

Às vezes, depois de ter lido O Segundo Sexo nos anos 50, me perguntava até que ponto a atitude de Sartre e Simone com relação ao sexo correspondia de verdade ao que sentiam.

A resposta no que toca a Simone só encontrei 50 anos depois ao ler as cartas que escreveu ao escritor norte-americano Nelson Algren.

Un amour transatlantique – Lettres a Nelson Algren 1947 – 1967, Gallimard 1997, Cartas a Nelson Algren: um amor transatlântico 1947 1967, publicado pela Nova Fronteira em 2000, revela uma Simone contraditória, paradoxal.

As idéias da Simone das cartas não têm nada a ver com as da Simone de O Segundo Sexo. Estão de modo geral em completo desacordo com as idéias desenvolvidas e defendidas em o Segundo Sexo, publicado em 1949, na França, nos Estados Unidos em 53, no Brasil em 60, pela Edel. Tradução de Sérgio Millet.

A reação das feministas e fãs de Simone às cartas, na França e no mundo, de modo geral, foi a pior possível. Era inacreditável e inadmissível que o modelo existencialista se revelasse uma “mulherzinha” apaixonada, totalmente submissa ao homem amado.

Simone e Algren Chicago

Nas cartas Simone se entrega de corpo e alma a Algren. Não se peja de confessar o seu amor e de repetir clichês amorosos como, “eu sinto muito sua falta, de suas mãos, de seu corpo quente e forte, seu rosto, seu sorriso, sua voz; sinto terrivelmente sua falta”, “quero serví-lo como uma árabe”,” esperá-lo com o jantar pronto, tirar o seu sapato, colocar os chinelos”,” eu serei sua para sempre”, terminando romântica como Julieta declarando seu desejo de “morrer um nos braços do outro”.

Infelizmente as respostas de Algren não foram publicadas. O escritor americano, autor de O Homem de Braço de Ouro, de 1949, National Book Award de 1950, base para o filme homônimo de Otto Preminger, de 1956, com Frank Sinatra, Eleanor Parke e Kim Novak, jamais admitiu o romance.

Algren conheceu Simone em Chicago em 1947. Simone estava nos Estados Unidos para uma série de palestras. Sua indicação para ciceronar Sinome é estranha. Talvez seu interesse por Marx justifique. Não falava francês. Simone falava inglês. Entenderam-se. Tão bem que acabaram na cama. Apaixonaram-se.
As cartas que Simone escreveu durante 20 anos deixam isso evidente. Se Algren morasse em Paris, Sartre seria sem dúvida descartado. Algren não admitia o triângulo.

Embora escrevesse sobre o submundo de Chicago, prostitutas, cafetões, traficantes de drogas, viciados, corruptos, era certinho.

Irritado com a recusa de Simone em mudar-se para os Estados Unidos, fez questão absoluta de negar até sua morte aos 72 anos, em 1981, qualquer envolvimento.
Os responsáveis por sua obra não permitem a publicação de suas cartas a Simone, pois isso iria no mínimo demonstrar que a recusa em admitir o romance, não passou de birra, de mágoa. Mas, mais dia menos dia essas cartas serão publicadas. Sem dúvida, surpreenderão.

Simone de Beauvoir e Sartre

Quando disse no início que a foto de Simone mexeu comigo, pretendia falar só da foto, Fui mais além. Isso porque ler, discutir, falar sobre Simone, fez e faz parte de minha vida. Com ela aprendi muito sobre as mulheres. Arrefeci meu machismo. Passei a compreendê-las melhor.
Minha primeira interlocutora foi Laïs Moura. Física, bonita e inteligente, trabalhava no reator. Simone era tema permanente. Antes e depois de casarmos.
Em setembro de 1960 estávamos os dois na primeira fila para ouvir Simone na FAAP.
O auditório estava lotado. A simplicidade de Simone contrastava com os diamantes, peles e perfumes das senhoras presentes. Ricas, milionárias.
Simone falou sobre o trabalho da mulher em Cuba.
Ironia? Sarro? Deboche? Talvez.

Em novembro de 1965 quando Laïs e eu lançamos o jornal artes:, publiquei por sua sugestão um texto de Simone: “BB e a Situação Lolita”.
Na primeira página, a foto de Brigite Bardot e o artigo de Simone deram muito que falar. O tempo passou. Muita água rolou.

Capa do livro “Tête à tête”

Quando Sartre morreu em 1980, fiquei chateado. Depois de ler A Cerimônia do Adeus, de Simone, fiquei muito mais. Envelhecer é aviltante. Humilhante. Não há na velhice mérito nenhum. Só limitação e dor.

Descrever com minúcias a decadência física e mental de Sartre, sua incontinência urinária e intestinal, não acrescentou nada ao seu perfil. Simplesmente o expôs, senil, frágil, doente. Para quê? A troco de quê?

Sei que há uma foto de Simone deitada, imóvel, ao lado de Sartre morto na cama do hospital. Não vi a foto. Nem quero ver. Não tenho a menor curiosidade de vê-la. Sei que vai me desagradar tanto quanto A Cerimônia do Adeus.
Que não lerei jamais. Prefiro a Simone de O Segundo Sexo, de Os Mandarins.

A publicação da foto de Simone nua, apareceu com a publicação no Brasil de Tête-à-Tête, da inglesa Hazel Rowley. Assim que terminar de lê-lo, voltarei ao assunto.

São Paulo, 8 de junho de 2006 18H05 Carlos von Schmidt


Copyright 2006 Editora Artes Ltda - Todos os direitos reservados