 Truman Capote Foto de Harold Halma 1947
Capote em leilão
O título deste texto é ambíguo. Não se trata de um capote, “casaco com mangas compridas, de tecido grosso, longo e amplo, para tempo de frio” como define o Larousse, nem de um “casacão, peça de vestuário, de mangas compridas, que cobre o tronco agasalhando-o contra o frio, feita de tricô, tecido, etc., e se assemelha ao casaco”, segundo o Aurélio, em leilão. Os manuais de redação desaconselham a citação de dicionários. Estou careca, cansado de saber. Não resisti!!!
Trata-se de Truman Capote. Dos bens do escritor, morto às 12 horas e 21 minutos de 25 de agosto de 1984, 35 dias antes de completar 60 anos. Nasceu às 15 horas de 30 de setembro de 1924, na Touro Infirmary de New Orleans. Não em um hotel como se costuma escrever.
A mãe, Lillie Mae Faulk, tinha dezesseis anos. Beauty Queen. Rainha da Beleza. Eleita em Monroeville, onde nasceu e viveu. Miss Alabama.
O pai, Archulus Persons, 25 anos, conhecido como Arch, mulherengo militante, colecionava amantes. Era um sexaholic, viciado em sexo. Lillie por sua vez também adorava to make love, fazer amor, transar. Arch conquistou-a sem muita dificuldade. Casaram-se de um dia para outro.
Ao saber que estava grávida, Lillie quis abortar. Arch não deixou. Foi graças a ele que um menino veio à luz. Arch deu ao recém nascido o nome de Truman Streckfus Persons.
Porque Truman? Por que era o nome de um amigo do colégio militar. Não tem nada a ver com o Harry Truman, futuro presidente dos Estados Unidos. Streckfus? Acredite se quiser, em homenagem à empresa em que trabalhava. Persons? Era seu sobrenome. De família.
Arch trabalhava em uma empresa marítima. A Streckfus Excursion Boat. Viajava em “gaiolas”, navios movidos a vapor, com roda na popa. Típicos do Mississippi. Cuidava das finanças do navio. Dos gastos dos passageiros. Em especial das passageiras. Não demorou muito para que os recém-casados descobrissem que entre eles havia muito pouco em comum. Ambos pulavam a cerca sempre que a oportunidade aparecia. Lillie não resistia a uma boa cantada. A vida em hotel facilitava e propiciava as escapadas. Arch vivia à caça. Não podia ver um rabo de saia.
Truman tinha quatro anos quando o casal separou-se. Foi enviado para Monroeville e criado por tias e primas da família da mãe. Um ano depois de chegar, apreendeu a ler e a escrever, sozinho.
A meninice em Monroeville foi para Truman, decisiva. A lembrança desse tempo faz parte de seus primeiros textos. É o coração da matéria. O ponto de partida. Às lembranças de Monroeville sobrepõem-se outras. As de homens desconhecidos bolinando e beijando Lillie nos quartos de hotel.
Intoxicação múltipla por drogas No dia em que Capote morreu nos braços da amiga Joanne Carson, na casa de Bel Air, em Los Angeles, falou-se muito em overdose. Ele era alcoólatra e drogado. Viciado em barbitúricos e tranqüilizantes. Usava e abusava de seu Capote’s Cocktail, Coquetel Capote, uma mistura de álcool e anfetaminas.
Para o legista a morte foi causada por “doenças do fígado complicadas por flebite e intoxicação múltipla por drogas”. É o que consta do atestado de óbito. Indiretamente intoxicação múltipla por drogas confirma os rumores da overdose.  Truman Capote Foto de Joanne Carson 23 de agosto de1984
Joanne fotografou Capote dois dias antes da morte. Ele estava sentado em uma cadeira de vime perto da piscina. Cinamom, o dobermann de Joanne estava a seu lado. A foto não mostra um Capote doente, debilitado, depressivo, derreado. Estava bem. A hipótese de suicídio é valida. A de que teria errado na dosagem das bolinhas, pouco provável. Ficará a dúvida. O que se sabe é que essas bolinhas o mataram.
Depois do funeral, Joanne fechou a porta do quarto de Capote e deixou tudo como estava antes da morte. Suas coisas ficaram vinte e dois anos intocadas, fechadas, até agora na casa da ex-mulher do apresentador de TV Johnny Carson. Divorciaram-se em 1972.
Capote vivia seis meses em New York em seu apartamento da Praça das Nações Unidas e os outros seis em Los Angeles, com Joanne. Ocupava dois dos cinco quartos. A ex de Carson era amiga íntima de Capote. Aqui, a palavra amiga não é eufemismo, não tem duplo sentido. Não tinham um caso. Não eram amantes. Entre Capote e Joanne não havia sexo. Amizade, sim.
Ela o tratava com muito carinho, afeto, atenção e intimidade, como a maioria das mulheres trata os amigos gays. Entendiam-se às mil maravilhas. Ele a considerava sua confidente e retribuía toda atenção.  Capote fotografado por William Paley Sabia o que era viver só, sem ter ninguém com quem se abrir, confiar. Gay desde menino, Truman apreendeu cedo que não era igual aos outros garotos. Seu “melhor amigo” era uma vizinha, Nelle Harper Lee. Era dois anos mais velho do que ela, mas ela era mais alta, mais forte. Truman apanhava de Nelle sempre que aprontava. Vivia apanhando. O Pulitzer de NelleNelle escreveu um romance, To Kill a Mockingbird. Foi publicado em 1960 por Lippincot. Recebeu o Prêmio Pulitzser um ano depois. Um dos personagens do livro, Dill Harris, foi inspirado em Truman menino.
Antes da publicação Nelle pediu a Truman que desse uma olhada no original. Truman deu. Corrigiu, sugeriu. Vem daí o boato de que o livro foi escrito por ele. Não foi.
Fala-se também que a fofoca foi coisa de Truman, enciumado com o prêmio. Quando o Pulitzer saiu, Capote e Harper estavam enfiados até o pescoço na pesquisa e documentação de À Sangue Frio. Nelle acompanhou-o a Holcomb, Kansas, em 1959 quando foi investigar o massacre da família Clutter. Foi ela que aproximou Capote dos habitantes da cidade e que cuidou das pesquisas e das entrevistas de In Cold Blood.
Capote dedicou o livro para seu companheiro, o escritor Jack Dunphy, e para Harper Lee. Na dedicatória fala de amor e gratidão. Furor Puritano Em Other Voices, Other Rooms, publicado em 1948 quando Capote estava com 23 anos, Joel Knox, o personagem central da ação, um menino de treze anos, alter ego do autor, revela como descobriu a homossexualidade.
Esse livro trouxe na sobre capa, na quarta capa, uma foto de Capote tirada no ano anterior por Harold Halma. Mais do que a história do jovem que descobre a sexualidade, a foto publicada abaixo, causou o maior escândalo, furor. Para muitos, a pose de Capote, à la Claudette Colbert seduzindo Marco Antonio em Cleópatra, filme de DeMille, de 1934, semi-reclinado languidamente em um sofá, encarando a câmera com expressão considerada lasciva, lúbrica, erótica, debochada, safada e agressiva, era um insulto.
Seu olhar melífluo, a mão apoiada sobre o sexo, mexeu com o machismo texano de muitos. Capote virou alvo dos puritanos de plantão. Foi um “pega para capar”.  Truman Capote Cinco anos após a publicação de Other Voices, Other Rooms, em maio de 1953, em minha primeira viagem aos Estados Unidos, comprei o livro no aeroporto La Guardia de New York. Com o livro na mão pude ver que a foto de Halma não era nada daquilo que falavam e escreviam. Tinha certo clima como a Mona Lisa tem, mas não passava disso.
Só mesmo o puritanismo exagerado e o espírito kukluxklanesco e waspsiano, dos brancos anglo-saxões protestantes, justificavam tanto barulho e celeuma.
A sacanagem estava na cabeça de quem via, não na foto. É claro que a pose de Capote não prima pela inocência, mas também não é um atentado ao pudor.
Muito menos como escreveu o Los Angeles Times, como se ele “estivesse sonhadoramente contemplando algum ultraje contra a moralidade convencional”. Exagero! Bullshit!!! Bobagem!!!
Por incrível que possa parecer, Capote foi malhado pela foto. Não pela história do menino que descobre o sexo e a homossexualidade. Seria natural que o fizessem. Não fizeram. Pervertido, tarado, bicha safada, viadinho, faziam parte do extenso repertório de adjetivos depreciativos e ofensivos que lhe atribuíram. Warhol tiéte de Capote Enquanto moralistas hipócritas desancavam Capote, um outro jovem, que ainda não sabia que era homossexual, Andy Warhol, então com 20 anos, vivendo em Pittsburgh, se encantou com a foto. Para Andy, Capote virou obsessão.
Tudo em Capote o atraia. O fato de ser sulista como outro gay, Tennessee Williams, autor de The Glass Menagerie, de 1945, ter nascido em New Orleans, a terra do jazz, o jeito de falar do sul, o sotaque sulino, a voz nasalada, aguda e chiada, faziam de Capote, personagem fascinante. Entusiasmado, escreveu uma carta. Não teve resposta. Não desanimou.
Em 1949 Warhol deixou Pittsburgh. Foi morar e trabalhar em Manhattan, New York. Fez vitrinas, publicidade e ilustrações. Obcecado por Capote não sossegou enquanto não encontrou o endereço dele.
Capote morava com a mãe e o padrasto, Joseph Garcia Capote, em New York desde 1933. Garcia Capote era cubano. Homem de negócios, industrial têxtil. Bem sucedido. Gostava de Truman. Tratava-o bem. Matriculou-o nas melhores escolas.
Após localizar o endereço de capote na Park Avenue,1060, Andy começou a assediá-lo através de cartas, telefonemas. Todos os dias escrevia bilhetes curtos: “Tenha um bom dia” ou ”Um dia maravilhoso para você” e outros do mesmo gênero. Pequenos desenhos às vezes acompanhavam os bilhetes. Aproximar-se de Capote, idolatrado às ultimas conseqüências, passou a ser vital para Warhol. Os bilhetes não respondidos, a total indiferença do jovem ídolo, levaram Warhol à loucura. Telefonava de manhã, de tarde, de noite.
Às vezes ficava o dia todo, do outro lado da rua, em frente ao prédio em que Capote morava. Esperava-o chegar, entrar e ia embora. Outras, o seguia pelas ruas à distância.
Capote ignorava-o e não lhe dava a mínima atenção. Isso não o desistimulava. Onde quer que Capote fosse, com a persistência de groupie, tiéte, macaca de auditório, Warhol ia atrás.  Truman Capote 1980 Chamar sua atenção, se fazer notar era para ele razão de ser, de viver. Sobre a insistente perseguição, Capote, anos mais tarde, comentou: ”Ele queria ser meu amigo, falar comigo, conversar comigo. Ele quase me enlouqueceu”.
Existe uma história não comprovada que conta que uma vez, em uma rua próxima ao prédio em que Capote morava com a mãe, Warhol se aproximou dela e se apresentou. Ela na maior inocência convidou-o para um drink. Subiram para o apartamento.
Há outra que diz que dona Nina - era assim que Joe Capote chamava a mulher – marcou, por telefone, um encontro com ele em um bar e que depois de alguns drinks, subiram para o apartamento.
E uma terceira. Dona Nina ao vê-lo de plantão junto a um poste, condoída, teria descido, convidando-o para subir.
Quando Capote chegou, levou o maior susto ao vê-lo sentado ao lado de sua mãe. Ela, de pilequinho, apresentou-o ao filho. Essa versão do encontro entre os dois nunca foi confirmada por Capote. Para alguns biógrafos, nunca aconteceu. Foi criação dos ghosts-writers de Warhol, o escritor e editor adjunto da revista Interview, Bob Colacello e de Pat Hackett, secretária de Warhol de 1968 a 1976. Meninas sapecas Autores respectivos de The Philosophy of Andy Warhol From A to B and Back Again, Andy Warhol Diaries e Andy Warhol Exposures.
Este último foi escrito a seis mãos. Além de Colacello, de Hackett, colaborou também Brigid Berlin.
Íntima de Warhol, freqüentadora assídua da The Factory, a Fábrica, ateliê do artista, funcionária da Interview, superstar de seus filmes underground. Filha de Richard Berlin, presidente da Hearst Corporation, império da mídia. O pai de Brigid era poderosíssimo. Às vezes atendia ao telefone e era alguém da Casa Branca dizendo que o presidente Nixon queria falar com Mr. Berlin. Ou o duque de Windsor. Era amiga de Patrícia Hearst, a herdeira da Corporation, a que seqüestraram. Aquela que foi com os seqüestradores assaltar bancos.  Warhol entrevistando Brigid Berlin Gorda, muito gorda, pesava mais de cem quilos. Na Factory a chamavam de 120 quilos de pecado. Warhol gostava de filmá-la, de fotografá-la nua. Brigid não se fazia de rogada. Rapidinho tirava a roupa. Destacava nas fotos polaróides e nos filmes os grandes seios caídos, a barriga, a bunda, enormes. Brigid posava à vontade como se fosse uma sílfide das passarelas.
Ambos, todas as manhãs, ficavam horas ao telefone jogando conversa fora. Brigid era confidente de Andy. Warhol abria-se com ela. Hipocondríaco em potencial, sempre falava de uma dor aqui outra ali. Uma vez disse-lhe que estava com dor nos bagos. Brigid respondeu-lhe; “sinto muito, mas de bagos não entendo nada”. Warhol não escrevia Dos três livros autobiográficos, Warhol não escreveu uma linha. Pat lia os capítulos para ele, Warhol aprovava, pedia para modificar alguma coisa quando não concordava e só. A história do encontro teria sido pura invencionice de Colacello, chapado depois de alguns baseados. Só escrevia maconhado.
Depois desse encontro que dizem não ter acontecido, Warhol continuou a telefonar diariamente. A mãe de Capote, que sempre estava além do terceiro uísque, atendia numa boa. Conversavam sobre Truman, Warhol falava da mãe dele e dos 25 gatos dela. O nome dos gatos era um só, Sam. A conversa ia longe.
Warhol encontrou em dona Nina a interlocutora ideal. Como fã incondicional do filho, elogiava-o sem revelar a paixão arrasadora que o consumia aliada ao desejo de ser famoso, célebre, conhecido, como Capote. Até que uma noite, cansada de tanto nhê, nhê, nhê, dona Nina, que àquela altura já estava para lá de Bagdá, soltou os cachorros. Disse a Warhol que parasse de ligar e de encher o saco. Warhol parou.
Capote referindo-se ao fato, falou: “Como todos os alcoólatras, ela tinha seu lado Jekyll-and-Hyde. Embora fosse uma pessoa basicamente simpática e de achá-lo muito meigo, baixou o cacete”. Capote em outra ocasião, falando sobre Warhol, comentou: “ele era a pessoa mais solitária, mais desamparada, que encontrei em toda minha vida”. Quinze desenhos de Warhol Para chamar a atenção de Capote, Warhol, em 1952, fez uma exposição de desenhos na Hugo Gallery, na Rua 55. Foi a primeira individual. De 16 de junho a 3 de julho. A mostra se chamava: Fifteen Drawings Based on Writings of Truman Capote, Quinze Desenhos Baseados nos Escritos de Truman Capote.
Convidou-o para o vernissage. Insistiu para que fosse. Capote não apareceu na noite da abertura. Foi depois com dona Nina. Em uma hora em que Warhol não estava. Não comprou nenhum desenho. Poderia comprar para ilustrar um de seus textos ou recomendá-lo aos editores das revistas que os publicavam. Era o que Warhol e Alexandre Iolas, o dono da galeria, um ex-bailarino, esperavam. Não fez nenhuma coisa nem outra.
Por ser a primeira individual de Warhol, a exposição é mencionada em todas as biografias, mas até hoje só encontrei uma crítica sobre a mostra. Foi publicada na Art Digest e assinada por James Fitzsimmons. Para ele os desenhos lembravam os de Bearsdley, Balthus, Jean Cocteau, Charles Delmuth e Toulouse Lautrec. O que pretendeu dizer ao citar artistas tão desiguais é difícil concluir. É provável que se referisse ao conteúdo, não à forma, pois entre o inglês Bearsdley e o francês Lautrec e entre os outros mencionados, não há nada em comum.
“O trabalho tem um ar de preciosidade, de estudada malícia. Rapazes, molecas e borboletas são desenhados com traço fino em magenta ou violeta espalhados aqui e ali ao que parece de modo arbitrário.”
Não sei o que Warhol disse a respeito dessa primeira crítica. Porém, saber que seus desenhos lembravam os dos famosos artistas mencionados por Fitzsimmons, se é que sabia quem eles eram, deve ter no mínimo massageado seu ego.
Depois dessa exposição as vidas de Capote e Warhol seguiram rumos opostos, mas os colocaram sob as luzes brilhantes dos refletores.  Truman Capote Foto de Cecil Beaton Tanger 1949 cortesia da Sotheby's London Warhol com Coca-Cola, Sopa Campbell, Brilo e Marilyn Monroe em 62 e Capote com In Cold Blood, À Sangue Frio, em 1965, passaram a ser marcos, referências, como pessoas e como profissionais que influenciaram e modificaram o status quo da literatura e das artes plásticas e visuais americanas. Por extensão, do mundo.
(Continua em Truman Capote nu e cru parte II)
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