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"Violência", de Alejandro Ahmed, estreou em Berlim





A crueldade do movimento



A quarta estréia do festival "Brasil Move Berlim" ficou por conta do grupo catarinense Cena 11, que trouxe ao palco um espetáculo polêmico e sem concessões ao gosto convencional.

Com capacidade para mais de 200 pessoas, o Theater am Halleschen Ufer, em Berlim, estava repleto e a impressão que o espetáculo do grupo catarinense causou pode ser descrita com o termo tipicamente alemão atemberaubend, algo como "de tirar o fôlego". Assim que começa o espetáculo, tem-se a impressão de que o público prende a respiração, inquieto e atônito com o impacto dos movimentos bruscos e quedas.

"Violência" não é novidade em palcos brasileiros, mas trouxe a Berlim uma imagem do Brasil que não corresponde exatamente àquela com que os alemães costumam associar o país, bem de acordo com a proposta da organização do festival de fugir aos clichês. Não há momentos "agradáveis" na encenação. Com gestos agressivos e incômodos, o espetáculo provoca e é incômodo, ao mesmo tempo em que prende o espectador com ótimas trilha sonora e projeções multimídia.

Dirigido pelo coreógrafo Alejandro Ahmed e sediado em Florianópolis, o grupo inspirou-se no teatro da crueldade, postulado pelo dramaturgo francês Antonin Artaud. Em "O Teatro e seu duplo", Artaud critica a rigidez do teatro europeu e a pobreza emocional causada por sua dependência ao texto, em contraponto ao teatro oriental. Ele salienta a importância de recuperação da catarse nos palcos, transferindo o enfoque da oralidade ao corpo. O mesmo princípio usou o Cena 11 para tratar da banalização da violência.


Entre a palavra e o castigo

Vestidos de uma moda típica da década de 90, misturando estética electro-punk e goticismos à la Marilyn Manson, os dançarinos vêm ao palco equipados com esses aparelhos que os dentistas usam para manter aberta a boca dos pacientes. Com movimentos bruscos, lembrando às vezes mais uma luta do que uma dança, o outro se torna no palco um objeto. Eles se chocam uns com os outros, se lançam ao chão e contra as paredes: dificilmente o espectador fica indiferente, a reação é quase sempre de espanto.

Um bailarino, com algo que lembra muletas longas presas às mãos e às pernas movimenta-se de modo assustador, evocando ora uma enorme aranha, ora uma forma alienígena, em coreografias tão tensas quanto arriscadas. Do alto sobre a platéia, uma voz feminina canta. Até que descem placas de acrílico transparentes, colocando-se entre público e dançarinos, trancando o grupo em uma jaula ou vitrine.


Dança do avesso

O espetáculo do Cena 11 é quase uma dança do avesso. Às vezes, o espetáculo parece mais bem concebido do que executado, com movimentos quase "pubertários". No entanto, essa impressão desaparece quando se tem em conta que seria cínico pensar em uma estética da violência. Fato é que a busca pela leveza dos gestos, pelo controle absoluto do movimento e sua beleza - elementos que encantam na dança - simplesmente dá lugar à feiúra e à dureza da queda, do impacto, da velocidade.

A trilha sonora é composta, com poucas exceções, por sons eletrônicos e industriais, entre outros de Marilyn Manson, que, na mesma noite, do outro lado da cidade, tocava solo e acústico. O grupo brasileiro convenceu, com sua provocação, e o público berlinense retribuiu com aplausos calorosos.



Rodrigo Rimon
Deutsche Welle
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