 Capa do livro Além do Sol Nascente
Além do Sol Nascente
Entrevistei Carlos von Schmidt dois dias antes do lançamento de Além do Sol Nascente na Livraria da Vila, na alameda Lorena. Nosso encontro foi no sushi bar do restaurante Makoto do Hotel Nikkey Palace na rua Galvão Bueno na Liberdade. Queimado de sol, os cabelos brancos presos na nuca em um pequeno rabo de cavalo, os olhos castanhos claros, cor de mel, vivos, brilhavam quando falava de Além do Sol Nascente, do Japão e tomava pequenos goles de sakê gelado.
Vestia uma camisa de jeans azul e uma jaqueta tipo colete verde militar. Calça de veludo creme e tênis reebok. Andava com dificuldade. Dava pequenos passos. Tinha dificuldade em se movimentar. Fez duas cirurgias nas pernas. Aneurisma, Trombose. Mesmo assim, uma semana após a última cirurgia em agosto, estava à frente da curadoria da Off Bienal 3. Seu pós-operatório foi na Jô Slaviero e Guedes galeria de arte coordenando a Off.
Esta foi a segunda vez que conversamos sobre seus livros. A outra foi há dois anos quando falamos sobre Dalí, Libertino e Surreal. De lá para cá a impressão que tenho é de que Carlos von Schmidt emagreceu uns dez quilos. O que não mudou foi seu jeito de encarar o interlocutor olhando direto nos olhos e responder cada pergunta sem hesitar. O bom humor, a ironia fina, sutil. O resultado de nossa conversa segue abaixo.
Rita Feital
 Off Bienal 3
artes: : Às vésperas do lançamento de Além do Sol Nascente , depois de amanhã, segunda-feira, dia 3, qual é o seu estado de espírito, a sua sensação, a sua expectativa?
Carlos von Schmidt: É a primeira vez que lanço um livro em livraria. Os outros lancei no MuBE e na galeria André. É bom rever os amigos, conhecer pessoas novas. Estou tranqüilo. Curioso. Não me sinto como uma noiva no dia do casamento. O lançamento como os vernissages das exposições que organizo e faço a curadoria, faz parte da minha rotina de trabalho.
O importante é saber que a J.J.Carol, a editora está distribuindo Além do Sol Nascente em oitenta livrarias. Saber que o livro está no site da livraria Cultura. Que revistas e jornais estão ligando para a editora e que darão cobertura ao livro. Minha única preocupação é não esquecer de comprar uma caneta de ponta porosa para autografar Além do Sol.
artes: : Em seus escritos suas viagens são frequentemente mencionadas. Por quê só a viagem ao Japão virou livro?
 Foto Carlos von Schmidt Vaca Votiva Kyoto julho 1990 CvS: Talvez por ter significado muito para mim. Eu achava que depois da ida ao Japão minha vida chegaria ao fim. Em 1990 estava com 60 anos. Coisa de capricorniano supersticioso. No templo Tofukuji o mestre zen Keido Fukushima disse-me para não me preocupar com a morte, pois minha viagem ao Japão era meu renascimento. Conto isso no capítulo O Leque Tofukuji.
artes: : No seu livro pode-se perceber uma religiosidade latente. Qual é a sua religião?
CvS: Meu bisavô era pastor. Luterano. Meu pai era protestante. Para casar com minha mãe virou católico. Quando fui ao Japão era zen. Que não é religião. É filosofia de vida. Jeito de viver. De encarar a vida. De não dar valo às ninharias, carros do último ano, posses, consumo, luxo e exibição. Não tinha uma religião definida. Fui criado como católico. Porém, aos poucos a Igreja me fez perder a religiosidade. Mas, conservei minha crença em Deus. Hoje Jesus e Buda fazem parte da minha fé. Reverencio os dois e Umabel, meu anjo da guarda.
artes:: Como foi escrever Além do Sol Nascente??  Hokusai 36 vistas do Monte Fuji CvS: Escrever para mim tem que me dar prazer. Se não dá não consigo ir além da primeira frase. Paro. Desisto. As pessoas dizem que escrevo como falo. Livre. Solto. Sem complicar. Sem rebuscar. Acho que é isso. Não sei escrever de outro jeito. A primeira vista parece que é fácil. Na verdade não é. Às vezes perguntam-me quanto tempo levei para escrever um artigo ou uma crítica, um texto de apresentação. Respondo que levei meio século. Tudo que escrevo hoje, aos 78 anos, tem a marca da vida que vivi.
São como algumas marcas que começam a aparecer em meu rosto. Escrever Além do Sol Nascente foi prazeroso. Reviver o que senti no Japão, através de fatos, coisas, lugares, cidades, pessoas, famosos, lugares, impressões e emoções, me deu uma sensação muito boa. Verdadeira joie de vivre, alegria de viver. Hoje acho que deixei de escrever sobre alguns tópicos da viagem. Não falei das jovens japonesas que desfilam com suas roupas exóticas pelas ruas de Ginsa, a sensualidade a flor da pele, do moralismo exagerado e exacerbado da censura a revistas como Playboy e outras do gênero, do Japão para turistas e o outro. Tenho muito ainda para escrever. Estou pensando em outro livro, Japão 2, talvez.
 Geisha em Kyoto artes: : Que capítulo lhe deu maior prazer? Qual é o seu preferido?
CvS : Posso responder de duas maneiras. A primeira é a resposta que todo pai dá quando lhe perguntam qual o filho preferido. Enrola e diz que todos são preferidos. A segunda menos diplomática é mais verdadeira. Gosto muito de Shinkanse e o furo. A história de meu banho no furô do templo e meus devaneios eróticos a respeito de Mariko, a interprete, me agrada muito. Amiga curiosa me perguntou se não rolou nada entre nós. Suspense. Em Japão 2 espero voltar ao assunto.
Gosto também de Gueixa. Para escrevê-lo importei vários livros sobre o assunto. Entre eles um do Nagai Kafu, Rilvary, A Geisha‘s Tale, um romance, traduzido do japonês para o inglês. Aprendi muito sobre o Japão lendo sobre as gueixas. No meu aprendizado Geisha de Liza Dalby foi fundamental. Americana, Liza cresceu no Japão. Fluente em japonês, formou-se em antropologia. Para escrever seu livro decidiu ser gueixa. É a única gueixa não japonesa que existiu.
Sobre o livro Arthur Golden autor de Memoirs of a Gueisha, que serviu de roteiro para o filme homônimo, disse: “Liza Dalby, a única estrangeira que conseguiu ser gueixa, sabe mais sobre o assunto do que eu jamais saberei e ela escreve sobre o assunto com graça e eloqüência”. Faço minha as palavras de Golden. Liza é genial. Outro capítulo de que gosto muito é Shunga. Nele revelo a história de um camelô e de uma gravata. Por trás dos dois dou dicas sobre a Shunga, gravura erótica considerada por muitos, pornográfica.  Shunga por Takita artes: : Qual a diferença entre escrever sobre Kurosawa, Mishima e Kafu?
CvS : Kurosawa e Mishima conhecia desde os anos 60. Assistir um filme de Kurosawa, Sonhos, falado em japonês, em um cinema de Tokyo, foi uma experiência única. Passar em frente ao quartel em que Mishima fez seppuku, desventramento seguido de decapitação, ver o terraço em que ele exortou a soldadesca a morre pelo imperador me deixou arrepiado. Decepcionante foi saber que Yoko, sua viúva, depois que Mishima se matou recusa-se a falar sobre o marido. Não fala desde 25 de novembro de 1970. Quanto a Kafu não sabia da sua existência até o ano passado. Descobri-lo foi muito importante para mim. Ele me deu uma nova visão sobre a gueixa. A partir do enfoque dele modifiquei o meu. Foi providencial.  Mishima artes: : Como foi conviver com os japoneses sem falar japonês?
CvS: Foi fácil. Em restaurantes, bares e no Ryokan, hotel, as poucas palavras que sei em japonês me ajudaram bastante. Outras vezes falava inglês. E com o interprete em Tokyo, Yokohama e Toyama e a interprete em Kyoto não houve a menor dificuldade de comunicação.Tudo correu bem.
artes: : Pode parecer prematuro o que vou lhe perguntar, mas Japão 2 é uma continuação de Alem do Sol Nascente? A viagem continua?
CvS : Não. Não continua. A possibilidade de que a realidade passe a ser ficção está me tentando. Poderei fazer do Japão cenário em que meus personagens vão viver suas histórias. Como em Rashmon vistas de vários ângulos e perspectivas. Ainda é cedo para falar. Mas já estou vendo a trama se organizando e tomando forma. Já estou sentindo prazer em imaginar como tudo se estrutura.
artes: : Antes de começarmos a entrevista o senhor disse que gostaria de tomar uma sopa de peixe em um mercado de Tokyo. De passar uma noite em uma casa de gueixa, desfrutar da cama e da mesa. Que mercado é esse? Que história de gueixa é essa?  Carlos von Schmidt em Toyama CvS: Imagine tomar a sopa às cinco da madrugada no mercado de peixe de Tsukiji em Tokyo. Ver o movimento da chegada de toneladas de toneladas de atum. Ver o leilão. O sol nascendo. Milhares de pessoas movimentando-se,
falando, gesticulando. Maravilhoso!
Você tem idéia do que será jantar em uma o-chaya, casa de gueixa, beber sakê, quente ou gelado, com duas lindas maykos, apredizes de gueixas servindo o sakê, o sukiaki? Uma outra tocando o shamisen enquanto a gueixa com quem você vai passar a noite passa delicadamente a oshiburi, a toalhinha quente em seu rosto, em suas mãos?
Do prazer da mesa ao prazer da cama, do tatami. Vê-la tirar a roupa e
descobrir que a japonesinha linda, delicada e feminina não usa nada sob o belo
kimono. Ali, nuazinha, sentada sobre os joelhos, sobre as panturrilhas em posição de seiza, sorrindo para você?  Araki Cordas Quero viver essas duas situações para poder descrevê-las o mais realisticamente possível em Japão 2. Nome provisório de meu próximo livro. Um romance. Em que sexo, amor, crime, acontecem. Uma história que pode começar em um restaurante da Liberdade e terminar no porto de Toyama no Mar do Japão. Conheço bem os dois. Uma trama onde modelos nuas amarradas e fotografadas por Araki e membros da Yacuza sendo tatuados, andam lado a lado em Tokyo, Yokohama e Kyoto, Não vejo a hora de seguir para o Japão. Sayonara!!!
Copyright 2008 Editora Artes Ltda - Todos os direitos reservados
|