Pavilhão da Serpentine Gallery - perspectiva
Niemeyer em Londres
Não é o ângulo reto que me atrai.
Nem a linha reta, dura, inflexível,
criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e sensual.
A curva que encontro nas montanhas do meu país,
No curso sinuoso dos seus rios,
Nas ondas do mar,
Nas nuvens do céu,
No corpo da mulher preferida.
De curvas é feito todo o Universo.
O Universo curvo de Einstein.
Ao confessar, neste singelo poema, sua atração pela “curva livre e sensual”, Oscar Niemeyer definiu-se.
Liberdade e sensualidade são, na sua arquitetura, fundamentais. Assim como o drible no futebol, a ginga no samba.
Pode-se dizer, sem medo de errar, que a leveza da arquitetura de Niemeyer tem suas raízes na curva.
Em suas construções, de Pampulha ao Museu de Niterói, via Parque do Ibirapuera, Brasília, Memorial da América Latina, a curva livre e sensual domina. Impera.
Tive o privilégio e a honra de idealizar e realizar a primeira exposição de Niemeyer no Brasil em l979, na 20ª Bienal Internacional de São Paulo.
Com exposições por todo mundo, até aquele ano fora boicotado no Brasil por pertencer ao Partido Comunista. Consegui romper o boicote.
Não preciso dizer que a exposição foi um sucesso.
Tabu quebrado, exposições de Niemeyer passaram a fazer parte do cenário artístico e cultural do Brasil. Do mundo já faziam há muito tempo.
Oscar Niemeyer em seu escritório no Rio de Janeiro
Por esse mundo de Deus, Niemeyer está presente na Alemanha, Argélia, Líbano, França, Estados Unidos, Itália, Noruega e Rússia. Aqui, está no Distrito Federal, em Minas, Rio, São Paulo, Curitiba.
Nesses estados sua arquitetura faz parte do cenário cotidiano. Do urbano diário e permanente.
Não integra o efêmero, o passageiro como fará em Londres, na Inglaterra, a partir do próximo 20 de junho.
Dessa data a 30 de setembro, em Kensington Gardens, nos gramados verdes da Serpentine Gallery, os londrinos verão pela primeira vez na Grã-bretanha a arquitetura de Oscar Niemeyer. Até então, inexplicavelmente ausente da Inglaterra.
Trata-se de um pavilhão, um local de encontros construído anualmente por solicitação da Serpentine Gallery a arquitetos que se destacaram mundialmente.
Desta vez coube a Niemeyer a tarefa. Curvas e rampas típicas do arquiteto caracterizam a construção. A um metro e meio do solo, a base de aço sustenta o pavilhão de 250 metros quadrados.
No sótão, de um auditório de vidro e concreto, a visão dos jardins é ampla. A estrutura do edifício, externamente é revestida de alumínio e internamente de gesso.
Duas paredes externas, pintadas de vermelho, dão ao pavilhão da Serpentine Gallery o toque alegre, tropical. Puro Niemeyer.
Sobre a construção, Niemeyer disse: “É um projeto que queriam que exprimisse a minha arquitetura. Foi o que tentei fazer no programa apresentado. É uma solução mais leve. O prédio está solto do chão. A forma é mais leve.”
Pena que toda essa leveza dure apenas três meses. Mas, quem sabe a Serpentine seja apenas o começo do Carnaval.
Pavilhão da Serpentine Gallery - projeto
Carlos von Schmidt
20 de maio de 2003 13horas
Fontes:
Fundação Oscar Niemeyer
BBC Brasil World Service
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