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Do átomo ao Byte


Carlos von Schmidt 1960 Os verdes anos

Eu não direi que parece que foi ontem. Não parece, não! Parece que faz muito tempo. Ontem eu fazia parte da turma do átomo. Do Johan Gutenberg. Da gráfica. Da imprensa. Hoje faço parte da turma do byte. Do Bill Gates. Da Internet. Do PC. (Favor não confundir com Partido Comunista nem com aquele outro PC de triste memória, do governo do Collor). Do personal computer.



Carlos e Pierre Restany - Bienal de Veneza 1988


Dois tempos, dois espaços, duas dimensões totalmente diferentes. Antes datilografava. Hoje digito. Evoluí. Virei internauta. Viajo na Internet. Aprendi novas palavras. Significados outros. Delete quer dizer cancelar, minimizar, apagar, Caps Lock, maiúsculas, enter, começar, ligar, conectar, arroba, sinal do endereço da caixa postal que se chama E-mail e quer dizer eletronic mail, correio eletrônico, mouse, rato que não é o Mickey do Disney, e que sem ele o computador não funciona, modem, dispositivo conversor de sinais, salvar, não tem nada a ver com salvamento, mas com a gravação de um documento, Ram é memória e outras, muitas outras. Menu deixou de ser cardápio, passou a ser a relação de comandos , clicar não é tirar fotografia, é pressionar e soltar o botão esquerdo do mouse uma vez, arquivo não é aquele armário de metal, é qualquer item armazenado no computador. E vai por aí.



XX Bienal Internacional de São Paulo - 1989







Kazuo Ono e Carlos von Schmidt em Yokohama - Japão - 1990


Se a máquina de escrever estava sempre à mão, disponível, sem surpresa, o computador não está. Além de estar sujeito a vírus e Hackers, piratas que invadem os computadores e saqueiam tudo que podem, depende de energia e da linha telefônica. Mas,com todas as limitações é uma máquina fabulosa. Lembro-me que uma vez escrevi nos anos 70 que gostava do cheiro da tinta, do ruído da impressora, da linotipo fundindo tipos, dos paquês amarrados com barbante, das provas de escova. Enfim, da gráfica.



Veneza Lido Giardinetto 2003


Hoje, frente a este monitor em que vejo este artigo sendo composto à medida que digito, a gráfica na Galvão Bueno, a redação no 21º andar da Nestor Pestana, estão a anos luz de distância.


De tudo, restou um arquivo de jornais e revistas artes: e a lembrança do que foi fazê-los desde setembro de 1965. Tenho também o clichê do logotipo artes: O que usei por 30 anos para imprimi-lo. No início do ano tive de jogar o suporte de madeira do clichê. Depois de mais de 30 anos não resistiu aos cupins. Agora só ficou o clichê de metal. Com restos de tinta de impressão. Mais vulnerável do que o suporte de madeira este computador em que escrevo já foi atacado por vírus. Essa praga da informática. O cupim é coisa da natureza mas o vírus é da canalhice, da maldade humana.



Cora Martins, Caciporé Torres, Granato, Aldemir Martins, André Blau,
Cláudio Tozzi, Peticov, Kim Esteve, Aguilar, Carlos von Schmidt
Edição Especial Aldemir de A a Z - 2002


Nesses 374 dias em que estamos na Internet , além de cupins e de vírus muitas coisas boas aconteceram. Melhoramos a qualidade das imagens, criamos uma identidade através do splash screen, dinamizamos nossas manchetes por meio do scroll. Para isso contamos com a colaboração da W3pci do Marcus Correa. Há meses aumentamos o volume de informações e nossas fontes internacionais e nacionais cresceram. Há um ano, dia 3 de novembro de 2002 entramos na Internet em caráter experimental. Dia 12 daquele mês, ao completar 37 anos iniciamos oficialmente nossa vida na Internet.



Paris Place Collette 2003


Era minha intenção escrever uma nota curta e rápida sobre o artes: e a Internet. Não consegui. Sonia Skroski e Rita Feital, jornalistas, fotógrafas e fiéis escudeiras , não deixaram. Exigiram fogos, champagne e caviar. O que fazer? Aprendi ainda menino com meu tio Gabriel , muito sábio, muito mulherengo, jamais discutir com “o sexo frágil”. Cedi. O resultado é essa página que muito me honra. Nesses anos todos, muitos dos que se manifestaram, fizeram e fazem parte da vida cultural e artística do Brasil e por extensão da nossa.



São Paulo Rangel Pestana Carlos e Picasso de Re Cayre 2003


Conhecê-los, como seres humanos e como artistas, críticos e marchands, foi e é um privilégio. Foi e é através deles, do trabalho deles, que fiz o meu. Há anos escrevi que não quero homenagens póstumas. Flores, quero-as agora. Como essa infinidade que recebi disfarçada em palavras. Obrigado. Só me resta dizer, repetindo Flaubert quando lhe perguntaram quem era Madame Bovary? Respondeu : ”Madame Bovary sou eu” . Sem soberbia, empáfia, arrogância, direi que “o artes: sou eu”.


Carlos von Schmidt
3 de novembro de 2003 18,30 horas
Hoje faz 1 ano que entramos na Internet




Documenta de Kassel L'Orangerie 1987




38 anos depois... O que eles dizem... (continuação da página comemorativa)


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