 As Três Graças Rubens Uma visita e tanto: Museo Nacional Del Prado PARTE 2
Entro pela “Puerta de Goya” que dá para a primeira planta. Quase 40 salas, com os maiores nomes da pintura universal. Tiziano, Caravaggio, El Greco, Mengs, Murillo, Poussin. E o que é melhor: com quadros de excelência de cada pintor. Lá estava Velázquez e seu “Las Meninas”.
Desta vez junto com outros, seus também. Mas onde estava o impacto que eu prometera à colega que me acompanhava? Parecia que eu tinha tomado um antitérmico e uma febre de 40 graus baixara para 37. Que coisa. Como é importante um holofote, um pedestal. Mas longe de mim, desmerecer o maior tesouro do Prado. Sua menina dos olhos. Havia outras obras, todas excepcionais. De Rubens, “As três Graças”. Deusas da dança e movimento, da mitologia grega. Cabia a elas enfeitarem Afrodite quando esta saía para seduzir. Olhando o quadro de Rubens, via o ideal de beleza do século XVII. Longe da anorexia moderna, eram corpos “normais”. Assim são os corpos das mulheres, pensei. Sem academia, sem photoshop.
Havia lá apenas um Rembrandt “Artemisa”. Pouco, para o tamanho do acervo em questão. Mas havia a notícia de que ainda em 2008, mais trinta obras do pintor holandês estariam na exposição “Rembrandt contador de Histórias”.As obras vêm do National Gallery, do Hermitage, do Louvre, do Metropolitan e de coleções particulares. As enormes salas dedicadas à exposições temporárias, já estavam sendo preparadas.
Deste primeiro piso, sete salas são dedicadas a Goya, quando ainda era pintor oficial da corte. Família real, nobres e cortesãos são retratadas pelo pintor. Ele empregará uma paleta de cores muito luminosas. Segue um estilo neoclássico, inspirado no pintor alemão Mengs. Mas se bem olhado, vemos a crítica e coragem de mostrar a família de Carlos IV com ironia, sem nenhuma elegância. “o rei é fraco e estúpido, a rainha, irritável e rixenta” analisa Wendy Beckett, historiadora de arte.
Goya tinha o dom de captar o “río abajo rio”, o leito do rio, que está sob as águas da aparência. Ele transcende a representação. Ele denuncia.  A família de Carlos IV Goya 1800 ost Os quadros “Maja Desnuda” e “Maja Vestida” também de inspiração classicista, são supostamente da mesma modelo, a Duquesa de Alba. Rumores não comprovados dizem que Goya tinha um romance com ela.
Penso que este par de quadros deveriam estar dispostos lado a lado. Para melhor olhar, comparar, absorver. Mas não. Apenas estavam na mesma sala. A modelo olha com languidez para aquele que a pinta e a transfere, eroticamente, para a tela.  Maja Desnuda Goya 1797–1800 ost / Maja Vestida Goya 1803 ost
Goya viveu um período da história da Espanha muito agitado e de mudanças revolucionárias. Em sua fase conhecida como “fase negra”, ele já estava surdo, doente, e profundamente decepcionado com seu país, com seus governantes.
Lá estava “O Colosso” que mostra o pânico de milhares de pessoas fugindo na sangrenta guerra contra os franceses. Parecem insetos sob um gigante que domina os céus. Ele emerge, como num pesadelo, de nosso inconsciente. Também “O três de maio de 1808”, obra que mostra no ato, um fuzilamento. Ao lado daquele que está sendo fuzilado, uma fila de espanhóis espera a sua vez de morrer. O exército de Napoleão está representado sem rosto, enquanto o povo encara o pavor da morte, ou sangra no chão. As suas imagens dramáticas e escuras serão uma clara referência para os pintores expressionistas e surrealistas.
 O Colosso Goya 1808-1812 (obra atribuída a Goya) ostt Há um filme muito bom, de Carlos Saura, “Goya” (1999). Não me refiro ao recente “As sombras de Goya”. Este, deixa a desejar, do ponto de vista da história do pintor. O filme de Saura faz uma narrativa que evolui seguindo o desenvolvimento da pintura do artista. Um começo luminoso, claro, seguido de fortes contrastes entre claro e escuro, até que predomina o negro total, em sua última fase. Recomendo, recomendo veementemente.
Eram quase três da tarde quando o estômago deu sinal. E era a hora combinada para encontrar minhas companhias no “Café Prado” dentro do museu. Um almoço silencioso, carregado de emoções. A que mundos cada um era levado pela arte que vimos?
Carimbando o bilhete de entrada, pode-se sair e voltar. Era nossa intenção para logo mais. Lá fora um solzinho amigável. Um homem vestido a rigor, tocava “Dicen que La distancia es el olvido, pero yo no concibo esa razón....” La Barca, que como Garota de Ipanema e My way, ouve-se por toda a parte.
Angela Weingärtner Becker
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