Foto divulgada pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos
mostra carta de baralho com Saddam Hussein como o ás de espadas. (AFP)
Chá de sumiço
Na noite de 9 de abril, por volta das 21 horas, os internautas que costumam visitar artesdoispontos.com viram, nesta seção (criada no dia 19 de março, quando George W. Bush, às 22:15 de Washington anunciou o início do ataque a Bagdá) o artigo Saddam no chão.
Foto de marine cobrindo a cabeça da escultura de Saddam com bandeira dos Estados Unidos abriu o texto. No dia seguinte, essa foto e outra que ilustrou Saddam no chão estavam nas primeiras páginas dos mais importantes jornais do mundo.
Na Europa, no Libération da França, no La Stampa da Itália, no El Pais da Espanha, no Daily Mirror, no The Times e no Al-Hayat da Inglaterra, no New York Post, no New York Times, no Washington Post e no USA Today dos Estados Unidos. Na Argentina no Clarin, na Folha de S.Paulo, no Brasil.
As manchetes, de modo geral, aludiam à queda de Bagdá: “Cómo cayó Bagdad”, “La Chute”, “La Caduta di Baghdad”, “Baghdad Falls”, “El régimen de Sadam se deploma”, “EUA controlam Bagdá e governo de Saddam some”.
A foto do marine com a bandeira norte-americana ou a da escultura pendurada na base ilustrou todas as capas. Fiquei alegre por tê-las escolhido no dia anterior, por ter escrito Saddam no chão.
No dia em que Bagdá caiu havia programado publicar texto sobre o tiro de canhão disparado contra o Hotel Palestine. O hotel fica na praça Al Firdus, O Paraíso, a mesma em que estava a escultura de Saddam.
150 jornalistas, repórteres, fotógrafos e cameramen das mais importantes agências noticiosas do mundo, de jornais, de revistas e televisões, fizeram do Palestine, central de notícias.
Dois dias antes da queda, dia 7, na primeira incursão da 3ª Divisão de Infantaria ao centro de Bagdá, à praça Al Firdus, um blindado Bradley, da margem do Tigre, aproximadamente a 500 metros do Palestine, disparou um tiro de canhão no 15º andar do hotel.
Tentando justificar o ataque em que dois jornalistas morreram e 5 ficaram feridos, incluso Samia Nakhoul, chefe da agência Reuters no Golfo Pérsico, generais que diariamente dão entrevistas coletivas no Centro de Comunicações das Forças Armadas, no Qatar, não conseguiram impedir que seus narizes crescessem à medida que diziam que o blindado defendeu-se de tiros disparados a partir do Palestine.
Mentira!!! Deslavada!! Das grandes!!! Vários jornalistas, que estavam no hotel e outros como Robert Fisk, inglês, do britânico The Independent, que estavam nas imediações, afirmaram sem a menor dúvida ou hesitação que não houve nenhum disparo do hotel.
Li hoje, sexta-feira, 11 de abril, The Grunts' War, na Newsweek de 14 próximo, escrito por Kevin Peraimo e Evan Thomas. Descrevem com minúcias o dia-a-dia de oficiais e soldados a bordo de tanques Abrams e blindados Bradley.
Permanecer, viver dentro dessas máquinas de guerra não é experiência das mais agradáveis. Nos Bradley, além de três tripulantes vão seis soldados. Nos Abrams a tripulação é de quatro homens.
O confinamento, o calor, a falta de banho, as roupas sujas, o cheiro de suor, de chulé, as necessidades biológicas, as garrafas de água de plástico cheias de urina, as máscaras, as roupas e as botas de plástico antigases, o espaço limitado, a falta de lugar para dormir com o mínimo de conforto, fazem do interior dos tanques, dos carros de combate, o pior dos cortiços.
Para complicar ainda mais, acrescente uma tempestade de areia e inesperados mísseis guiados por lança-míssil russo Kornet-E, vendidos pela Rússia ao Iraque, por baixo do pano. Os superoniscientes serviços de inteligência nada sabiam a respeito. O Pentágono, muito menos. Muitos americanos morreram, tanques e carros de combate foram destruídos, graças à ignorância dos super-serviços de inteligência.
Pelo quadro descrito acima, pode-se deduzir que o nervosismo, a instabilidade e a irritabilidade fazem parte da rotina diária desses soldados. Mas isso não justifica a máxima de atirar primeiro e perguntar depois. Prática comum. Habitual. Suspeito? Na dúvida, fogo nele.
No mesmo dia em que o Palestine foi atacado, o escritório da emissora AL Jazeera também foi. Um A-10 voando muito baixo disparou vários mísseis. Um jornalista morreu. Coincidência? De jeito nenhum.
Até agora, em 21 dias de guerra 12 jornalistas já morreram. Número altíssimo, considerando-se os 150 profissionais em serviço. Dos 135.000 homens das forças anglo-americanas, 131 morreram. 18 estão desaparecidos ou presos. A matemática da guerra é sempre questionável, discutível. Imprecisa.
Só não é para os que morreram, para os que estão feridos, mutilados, perderam tudo, foram agredidos, machucados e perderam, além de bens, a esperança, a vontade de viver.
Iraquiano carrega restos de estátua de Saddam Hussein
derrubada em Bagdá. (Ramzi Haidar/AFP)
Bagdá caiu. Saddam, seu governo, seu exército, sumiram. Ficou o caos. E a estranha sensação de que algo está errado. Mais dia, menos dia, saberemos.
Discretamente, os britânicos começam a voltar para o Reino Unido. O que é um bom sinal.
Carlos von Schmidt
11 de abril de 2003 5 horas 30
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