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Clodovil Hernandes
Clodovil Hernandes

Porque Clodovil foi polêmico!


Nos anos 60, 70, a mudança fazia parte do mundo. Tudo estava em mutação. A forma de pensar com os Hippies, de se revoltar com os estudantes guerrilheiros, as gírias mais malandras, a música com a chegada dos Beatles, do rock e da bossa nova, os relacionamentos com a onda do amor livre, a irreverência, o prazer, o falar, o ouvir e o se vestir....

Lá fora tinha Twiggy desfilando de mini saia, Veruska de saia midi, Mary Quant inventando moda curta e Valentino cobrindo o corpo das modelos. Aqui no Brasil tínhamos Denner e Clodovil. Depois de Madame Rosita, da moda das peles, eram os primeiros “costureiros” que apontavam no mundo da moda por aqui. Claro que os dois nomes eram sinal de polêmica e rusgas entre si e de luxo... Muito luxo. Enquanto Denner fazia a linha mousseline, voal, tudo com tecido muito fino, luxuoso....tínhamos Clodovil fazendo uma moda mais séria, mais bem desenhada e definida, apesar de estar longe disso. Significa que era mais séria em relação aos lançamentos de Denner, que era Pamplona de Abreu enquanto Clodovil se gabava de ter sido adotado no interior de São Paulo e ter conseguido ser um “costureiro” desabrochando no mundo da moda brasileira. Fazia mais o gênero comportado na época, mas elegantíssimo. Em uma ocasião de glamour na noite paulistana se não se vestia Denner ou Clô, não se estava bem vestida. Foi o “costureiro” preferido de Cacilda Becker, Elis Regina, das famílias Diniz e Matarazzo.

No Brasil o termo “manequim” era usado para as meninas que desfilavam. O termo “modelo” ainda não tinha força neste mercado. Denner usava a elegância de Leilah Assumção de uma forma magistral. A Rhodia reinava no mundo da moda com Mila Moreira, que depois virou atriz e apresentadora, saindo-se muito bem. Ambas com belezas diferentes, mas estilosas e talentosas. Eram anos de Fenit no Ibirapuera, de cílios postiços, de traços grossos de lápis nas pálpebras, de sombras azuis carregadas sobre os olhos.

Clodovil
Clodovil

Em São Paulo Christine Yufon reinava como Agência de manequins em sua escola no 2º andar do Conjunto Nacional, na Av. Paulista, além de ensinar boas maneiras e etiqueta às meninas da sociedade paulista. No Rio de Janeiro o mesmo feito era dominado por Socila na Av. Nossa. Senhora Copacabana. O mundo da moda não tinha nada a ver com o mercado de hoje. Ganhava-se um cachê normal, sem nenhum exagero. O que contava mesmo era o esplendor de estar nas passarelas da época, ao som de Credence Clearwater Revival, vendo a moda da Dijon, da Alpargatas....Dior timidamente chegando no Brasil....era tudo um sonho, a mudança de valores afetava os comportamentos, a forma de se mostrar, a moda.

Em São Paulo, fazer aulas com Christine Yufon e depois descer a Rua Augusta a pé, de mini saia, parando no Mondo Nostro para tomar um drink (sem álcool, claro) ou no Yara para um frapé de côco...era o máximo. E desfilar na Fenit era um sonho.

E Clodovil? Clodovil era o sonho de quem começava uma carreira neste sentido. Todas as meninas se espelhavam em sua moda, no jeito dele ser, no seu homosexualismo encantador (na época todos achavam que ele era, antes de sua opção sexual, educado, gentil, culto, enfim...um homem fino!). Quando ele comparecia a um desfile......era um suspiro sem fôlego! Um sonho de colocar um vestido dele por alguns segundos...mesmo que não fosse na passarela. Sua cultura deixava todos de boca aberta. Como um costureiro da alta-costura brasileira, gay (ainda não se usava esta palavra por aqui...), adotado, falava tão bem, sabia tanta coisa, tinha um francês impecável e ainda criava moda brasileira com charme, requinte e muita, mas muita mesmo, elegância?

Mesmo depois da época áurea da moda, antes desta concorrência desenfreada entre os modistas que de certa forma é saudável. Quando abriu sua loja Pret-a-portê na Avenida Cidade Jardim e recebia (ou não) as pessoas na porta. Porque quando eram feias ou mal-vestidas ele se recusava em receber... Quando foi para a TV, frente ao programa "8 ou 80", da Globo, responder sobre a vida de Dona Beja, soberbamente, sem erros e sem arrogância. Era somente um estudioso ali sentado, respondendo questões sobre uma personagem brasileira, como ele.

Mas ele se tornou arrogante quando foi para a TV, quando afastou-se do modismo da moda, por opção, quando sintonizou-se com o populismo e entrou na casa de mulheres, donas de casa, que jamais sonharam em vestir um modelo Clô, por falta de recursos. Mas ali estava ele, frente a milhares de mulheres, que ouviam sem pestanejar as coisas que ele dizia, suas risadas inconfundíveis, suas alfinetadas verbais, seus acessos de fúria com seus convidados. E as mulheres de todos os níveis sociais adoravam. E por quê? Porque Clodovil sempre foi autêntico. Nunca escondeu que queria a fama por ter sido rejeitado por sua família biológica. Que queria dar a volta por cima da vida. Que construíra sua mansão em Ubatuba para polemizar mesmo, para ser diferente, falado, amado, odiado. Ele mesmo falava tudo desta forma. E viveu de uma forma polêmica para, simplesmente, ser alguém. Para ser lembrado quando subisse o degrau. É assim que ela falava da morte, que para ele não existia, como declarou em um programa de entrevistas da Xuxa, na Rede Globo. A morte, dizia ele, é só do corpo, da matéria que envolve o indivíduo....porque o indivíduo é uma energia com essência..os mais nobres cheiram a perfume francês, os menos nobres exalam cheiro de Lancaster (perfume muito usado nos anos 60, 70)....e gargalhava, como ele só!

Clodovil
Clodovil

Deixo aqui minha homenagem a este homem polêmico e genial que permeou minha vida de forma magnífica. Por que fui sim, manequim de Christine Yufon. Descia a Rua Augusta em 1967, 68, 69, 70, 71 e passava no Yara e escrevia meu nome nos bancos de couro com caneta esferográfica. Desfilei na Fenit até a última edição do Ibirapuera, em 1969. Fui, por várias vezes, capa do Suplemento Feminino do Estadão, quando ainda era de página inteira. Fui fotografada para a Revista Jóia e para a Revista Desfile, com roupas de costureiros da época. E cantava Beatles e comprava Pôsteres na Poster Shop. E Clodovil sempre fazia parte de nossas vidas naquela época, direta ou paralelamente. E dávamos boas risadas com ele, dele, sobre ele. E na época em que estilista era costureiro, em que modelo era manequim em que gay era só uma pessoa mais educada, em que o “legal” era sair com cara de Twiggy na rua, Clô era para nós somente uma pessoa boa com todos os tipos de classes que com ele trabalhavam. Gostava de rir, de falar bobagem com alfinetadas em todos os outros que não fossem próximos. Mas sempre foi autêntico, verdadeiro.

E nunca escondeu isso. Sempre foi coerente com sua pessoa. Sempre quis ser aceito pelo que era, por ter conseguido sobreviver de uma forma diferente.

Virou político, mais uma vez para ser alguém que os outros pudessem ver e lutar por assuntos antes nunca pensados pelos deputados de sempre. Mas, se notarem, morreu sozinho. Porque ninguém teve a audácia de ser a sombra de Clô. Todos queriam ou ser o próprio ou brilhar por ter falado mal dele. Nunca estar “junto” a ele.

Clô, você foi genial!

Sônia Skroski
17 de março 2009 – 19h18


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