Alicia (Leonor Waitling) na aula de dança
“Nací en una mala época para España,
pero muy buena para el cine.” Pedro Almodóvar
Quando ninguém perguntaA auto-entrevista é uma forma de comunicação muito eficaz. Através dela o entrevistado pode dizer tudo que lhe interessa e deseja falar.
De modo geral as perguntas de repórteres e curiosos são sempre as mesmas. Após algumas entrevistas o encontro com jornalistas torna-se monótono. Uma chatice.
A solução é a auto-entrevista. Almodóvar recorre a ela sempre que tem o que contar e ninguém pergunta.
Abaixo, o diretor e roteirista de “Fale com ela” fala de atrizes, atores, motivações, idéias, memórias e muito mais.
CVS
24.12.2002, 19,30 hs
Almodóvar entrevista Almodóvar:- A partir de agora vai ter que se dizer que além de bom diretor de atrizes é também de atores. Os protagonistas de “Hable com ella” são dois homens e os atores que os interpretam estão esplendidos.
:- Me alegra que seja você a dizer isso. Sem dúvida, Javier Cámara e Dario Grandinetti estão soberbos em papéis bastante complicados. Porém, “Hable com ella” não é meu primeiro filme com protagonistas masculinos.
“Carne Trêmula” é uma história com testículos. “Matador” e “A lei do desejo” também eram histórias onde homens determinavam a ação. Em “A lei” inclusive a mocinha (Carmen Maura) também era um homem.
:- Com quem curte mais?
:- Esta se referindo a que?
:- Na hora de trabalhar, com os atores ou as atrizes?
:- Quando são maravilhosos e conseguem que me esqueça que sou o diretor e o roteirista, curto igual. Ao longo de quatorze longas reconheço que encontrei maior quantidade de boas atrizes do que de bons atores. Porém é certo também que escrevi mais papéis femininos do que masculinos e neutros.
:- Claro...
Lydia (Rosário Flores) na praça de touros
:- Em outra área da escrita e sempre generalizando, creio que as mulheres me inspiraram comédias e os homens tragédias.
:- Por que não faz mais comédias?
:- Os roteiros não vêm. Mas, vou fazer força.
:- É possível forçar um roteiro, os elementos que o compõem e o tom?
:- Não. Ou não se deveria, excetuando-se os documentários e biografias.
Benigno (Javier Câmara) cortando o cabelo da comatosa Alicia
:- A que gênero pertence “Hable com ella”?
:- Não sei. Só sei que não é um faroeste nem um filme de agentes da CIA. Tão pouco é James Bond, nem de época.
:- Há algo de época sim...
:- É verdade, sete minutos exatos, que se passam no ano de 1924.
:- Esses sete minutos estão dando muito que falar...
:- Apesar de serem mudos... No meio do filme o enfermeiro Benigno (Javier Cámara) aproveitando uma das poucas noites que tem livre vai a Filmoteca para ver um filme espanhol mudo. “Amante encolhido”. Nossos sete minutos desse filme.
:- Não é arriscado interromper a narração geral para colocar uma outra muito diferente, a não ser que seja um flash-back, das mesmas personagens...?
:- Não é um flash-back, é uma história independente... sim é arriscado, muito.
:- Não lhe dá medo que o espectador se confunda ou se disperse?
:- Agora que terminei o filme, não, porém enquanto rodava estava apavorado. Até ter as duas histórias montadas juntas não consegui dormir tranqüilo.
O trecho que inclui, do momento em que Javier vai à Filmoteca, até que termina de contar à comatosa e distante Alicia (uns dez minutos de metragem) é um dos meus favoritos.
:- O que motivou este “desvio” da história central?
:- É um desvio aparente, porque a história do enfermeiro não pára durante esses minutos, mas se oculta e se funde com a do “Amante encolhido”. De todos os modos a razão original “quando estava gestando o roteiro” era de que o filme mudo servisse de tapadeira.
:- Para tapar o quê?
:- Aquilo que realmente está acontecendo no quarto de Alicia. Não quero mostrar ao espectador e invento “Amante encolhido” para lhe tapar os olhos. De todo modo o espectador tomará conhecimento do que ocorreu ao mesmo tempo em que o resto dos personagens. É um segredo que gostaria que ninguém descobrisse.
:- A isso se chama manipulação.
:- É uma opção narrativa não muito simples. Por isso estou contente com o resultado.
Benigno (Javier Cámara) e o cartaz de Amante Minguante
:- De modo geral não é a primeira vez que seus personagens explicam-se a si mesmos através de outro filme. Em “De saltos altos”...
:- Victoria Abril contava berrando à sua mãe, Marisa Paredes, uma cena de “Sonata de Outono” para explicar o amor e o ódio que sentia por ela, um amor e um ódio tal que a levaram a matar.
Em “Matador” os protagonistas entram precipitadamente em um cinema, (ela fugindo dele) onde se projeta “Duelo ao sol” na tela. Podem ver o que vai ser o fim deles.
Em “Carne Trêmula” quando Libero Rabal e Francesca Neri lutam, na televisão passa “Ensaio de um Crime” de Buñuel. O título do filme de Buñuel dá o título ao capitulo “Carne”...
E suas imagens antecipam dois elementos que depois aparecem no meu, um homem sem pernas (o personagem de Javier Bardem acaba depois dessa cena em uma cadeira de rodas, em “Ensaio”... era um manequim ao qual tirava-se uma perna) e o fogo que pegaria o personagem de Ângela Molina quando liberto rompe com ela (em “Ensaio” era o forno em que Archivaldo de La Cruz queimava um manequim idêntico ao personagem que interpretava Miroslava). Anos depois a atriz morreu em um carro que se incendiou.
Paz Vega em Amante Minguante
Para mim os filmes que vejo se convertem em parte de minha experiência, e os utilizo como tal. Não há a intenção de homenagear seus autores nem de lhes imitar. São elementos que interagem com o roteiro como parte dele.
“Contar filmes” é algo que tem a ver com minha biografia. E não me refiro a um cineforum ou à típica discussão sobre cinema (odeio isso).
Recordo que, ainda menino contava os filmes para as minhas irmãs. Os filmes que tínhamos visto juntos. Eu me excitava com as lembranças e quando as narrava as reinventava.
Realmente estava fazendo minha própria adaptação. Minhas irmãs gostavam mais das minhas versões infiéis e delirantes do que do filme original.
Lembro de que nessas horas do tempo parado (sentados no pátio, elas costurando, ou reunidos em volta da mesa com o braseiro em baixo) elas me pediam: “Pedro, conte o filme que vimos ontem”...
Marcos (Dario Grandinetti) no cemitério
Críticas – Mundo aforaNa madrugada de 24 de dezembro, no micro, nas notícias do dia, vi que os dois críticos de cinema da revista Time tinham escolhido Hable con ella, Fale com ela, de Pedro Almodóvar, o melhor filme de 2002.
A opinião da Time sem dúvida vai pesar em janeiro quando o Oscar para o melhor filme estrangeiro for votado. Entre os vários filmes que concorrerão ao prêmio está Cidade de Deus.
Além de Fale com ela o filme brasileiro vai ter que superar outro de língua espanhola, o surpreendente Nove Rainhas da Argentina. Antes da Time, Fale com ela foi considerado por críticos de jornais e revista mundo afora, como o melhor filme de Almodóvar.
Vejamos:
Na França. “Se diz que o tango é uma canção melancólica que se dança. Hable con ella é um tango filmado”. Liberation.
“Um melodrama de beleza surpreendente. Almodóvar atinge um nível de maestria e de beleza, sutileza e coerência que faz de Hable con ella a obra de incontestável maturidade desse “enfant terrible” do cinema”. Le Monde.
Na Itália. “Casais à margem de uma crise de morte. Almodóvar, pudor e suavidade. Um cinema que vai direto ao coração e não aceita concessões. Um cinema que pode escandalizar, pode fazer pensar, chorar, incomodar, e tudo isso junto, porém jamais deixa o espectador indiferente”. Il Secolo
“A crítica faz restrições ao uso da expressão” Obra Prima “, porém no caso de Hable con ella pode se atrever. O filme de Pedro Almodóvar é simplesmente belíssimo”. La Repubblica.
“Pedro Almodóvar não se desmente. Não renuncia à sua alma transgressora, porém pede a seu público que olhe seu filme com os olhos do coração, sem preconceitos morais. Hable con ella é um drama delicado no qual se esconde um ato brutal”. Corriere Della Sera
Copyright 2002 Editora Artes Ltda - Todos os direitos reservados
|