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A Salomé de Carlos Saura

Por que Herodes matou João Batista? Porque havia prometido à Salomé, sobrinha e enteada, que daria a ela o que ela quisesse, se dançasse para ele.

Ela, jovem, bonita, sensual, dançou. Fez um strip tease. A dança dos sete véus. À medida que tirava os véus, entre requebros dos quadris e sinuosos meneios ventrais, deixou Herodes sem fala.

Quando Salomé deixou o último véu cair, a beleza de seu corpo desejável deslumbrou o tio e padrasto, tetrarca da Galiléia.

Extasiados ficaram também os convidados, o crème de la crème galileico, príncipes, tribunos, militares e os mais importantes que se banqueteavam celebrando o aniversário de Herodes.

Herodías, mãe de Salomé, abandonara o marido, Felipe, irmão de Herodes, para viver com o cunhado, poderoso tetrarca. Ao seu lado, orgulhosa, exultava com o sucesso da filha.





João, o que batizava em nome de Jesus, que o pai de Herodes não conseguira matar quando ordenou a matança dos inocentes, estava preso.

Herodías insistira para que Herodes o matasse. Limitou-se a prendê-lo. Herodías queria vê-lo morto. Não lhe dava o direito de criticar seus atos. E João criticava.

No Novo Testamento, no Evangelho segundo São Marcos, quando Salomé terminou o strip, Herodes encantado disse-lhe: "Pede–me o que quiseres e eu to darei. E jurou-lhe: Se pedires mesmo que seja a metade do meu reino, eu ta darei. Saindo, ela perguntou a sua mãe: Que pedirei? Herodías respondeu: A cabeça de João Batista.

Entristeceu-se profundamente o rei; mas, por causa do juramento e dos que estavam com ele à mesa, não lha quis negar. E, enviando logo o executor, mandou que lhe trouxessem a cabeça de João. Ele foi e o decapitou no cárcere e, trazendo a cabeça num prato, a entregou à jovem, e esta, por sua vez, à sua mãe."





Mas, como sabemos, nem tudo que está escrito no Livro Santo, aconteceu como narrado. O fato teria acontecido muitos anos antes com uma dançarina que depois de fazer o strip pediu a cabeça de um homem.

Oscar Wilde na sua versão de Salomé, e Carlos Saura na dele, optaram pela paixão da moça por João Batista. Recusada pelo homem santo, pede sua cabeça. No prato ou na bandeja, sem trocadilho infame, um prato cheio para Freud. Decapitá-lo foi como castrá-lo. Nos 86 minutos do filme de Saura, o sétimo em que conta uma história através da dança, a beleza das cenas domina.

O fato de ter localizado a trama de Salomé em um ensaio de dança flamenco, mostrando ao espectador o desenrolar da ação através da filmagem de cada cena, enriquece o filme.





O desempenho dos dançarinos individualmente e do corpo de dança como um todo, é impecável. A meu ver, só fica a desejar a solução dada para a cabeça de João Batista. Saura poderia ter feito melhor. Há muito, os japoneses no Kabuki e no Bunraco já resolveram isso com maestria.

No mais, excelente a música, a dança de Aída Gómez, Salomé, Paco Mora, Herodes, Carmen Villena, Herodías, Javier Toca, João Batista e a atuação de Pere Arquillué, alter ego de Saura.

Se você gostou de Bodas de Sangre, de Carmen, de El Amor Brujo, Salomé, “una historia de amor llevado al limite de la locura” como disse Saura, vai lhe agradar muito.




Desenhos de Carlos Saura para Salomé




















Carlos von Schmidt
São Paulo, 12 de outubro de 2003 12h05


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