Nicolas Uriburu 1972 Evita Perón Imagens de uma paixão
Memorial da América Latina Galeria Marta Traba
  
"Nocturno Peronista" Daniel Santoro "Eva: Mi Tema en Acto" instalação de Federico Klemm
"Nuestra Señora de los Descamisados" Aurélio García
Só falta canonizarA primeira vez que fui a Buenos Aires foi em 1953. Em maio. Não havia vôo direto. Fui até o Rio, Santos Dumont, com a Cruzeiro do Sul. Sai do Galeão com a KLM.
Em Buenos Aires hospedei-me no Claridge Hotel. No dia seguinte à chegada acordei com o ronco de motores de aviões de caça. Voavam rasantes. Perguntei do que se tratava. "Coisa de militares" responderam.
Em fins de maio a Argentina ainda não se recuperara da morte de Evita, Eva Duarte Perón, em 26 de julho do ano anterior. Estava de luto.
Nascida em 1919, Evita, jovem atriz radiofônica, em 1945 casou-se com Juan Domingos Perón, militar de carreira. Tinha 26 anos. Perón, 49. Dois anos após o casamento Perón foi eleito presidente da Argentina com espantosa maioria de votos. Instituiu o Peronismo e permaneceu com mão de ferro no poder até 1955.
Sem deslumbrar-se com os brilhos do poder, Evita, sorrindo muito e seduzindo com seu charme natural e incrível jogo de cintura, estrategicamente tomou sob sua guarda, dois ministérios, o da Saúde e o do Trabalho.
Em pouco tempo seu poder manifestou-se. Evita não pedia. Mandava. Para os peronistas era uma deusa. Tinha a beleza e o encanto de Vênus e a sabedoria de Minerva.
Se no Brasil Getúlio era considerado "o pai dos pobres", na Argentina Evita era a mãe. Os "descamisados" adoravam os vestidos caros e assinados por nomes famosos do mundo da moda.Transferiam para Evita sua ânsia por riqueza, luxo. Seus desejos frustrados, sua sede de poder. Joãozinho 30 uma vez disse que intelectual gosta de miséria, pobre, de luxo.
O câncer que a vitimou teve funestas conseqüências. Três anos depois de sua morte, Perón que havia rompido relações com a Igreja, foi derrubado por golpe militar. Voltou ao governo em 1973. Não completou o mandato pois morreu em 74.
Nesse vai e vem político-militar, a presença de Evita sempre se manifestou. Para os argentinos sempre houve Deus no céu e Evita na terra. A lenda, a aura, a mística, a mítica que se criou em volta de Evita antes e depois de sua morte, histórias e fatos que concorreram para tal, fizeram da jovem catapultada ao poder via Perón, ícone.
A exposição Eva Perón: imagens de uma paixão, como o próprio nome indica, permite avaliar o culto que se criou e que 50 anos após sua morte está tão vivo quanto esteve nos anos de glória. Poucos, mas plenos.
Não há na história da América Latina, da América do Sul, nenhuma mulher que tenha despertado tal idolatria. A tal ponto que se transformou em museu, o Museo Evita mi vida, mi missión, mi destino.
Esta exposição que o Memorial da América Latina está apresentando até 1º de dezembro, faz parte dessa devoção. Espécie de oração que se faz em momento difícil. A Argentina não conhecia o fundo do poço. Agora, conhece. Eva Perón: imagens de uma paixão é uma evocação. Um ex-voto. Um exorcismo.
As pinturas, as instalações, revelam sentimentos os mais diversos. Da admiração total à ironia. Do respeito absoluto à gozação. Três pinturas, Eva Perón (9 de julho de 1950) de Nicolas Uriburu, da Série Mitos argentinos, óleo de 1972, Nuestra Señora de los descamisados, de Aurélio García, acrílica de 1999 e Nocturno Peronista o 20,25, de Daniel Santoro, acrílica de 2001, refletem bem os estados de espírito e visões criticas, 20, 30 anos depois do triste fim.
Nem sempre correspondem à exaltação pura e simples. Aqui os sentimentos oscilam entre a crítica acerba e ao deboche sutil. Às vezes a sensação de estranheza, distanciamento realça, reforça essa sensação. Seria insuportável se não fosse assim.
Eva Perón Imágens de uma pasión reúne artistas argentinos das mais variadas tendências. Há de tudo. De A a Z. Pode-se através das obras expostas percorrer todos os ismos de Cézanne aos nossos dias. O resultado é uma multiplicidade de estilos e interpretações riquíssimo.
O que dizer de um lenço de seda preto comprado no Harrods relacionado no Press Release argentino. No Harrods de Londres ou de Buenos Ayres, pergunto? Que importância tem onde foi comprado, respondo? Às vezes muita. Outras, nenhuma.
Quando um lenço sem história passa a ser exibido, deixa de ser o que é. Vira totem. Porém, fora de seu espaço específico, circunstancial, não passa de uma curiosidade.
Tirem o Pilar de Cojimar em Havana, Cuba, e o barco de Hemingway deixa de ser o que é. Vira um objeto curioso, como o lenço. Não exposto.
Quanto aos vestidos exibidos como "sagradas relíquias" fazem parte do universo da moda. Destacam-se de outros porque foram usados por Evita. De lascar, de doer é a informação no press release argentino de que vê-los fora da Argentina, é "um privilégio para os brasileiros".
Ainda se fosse o "Santo Sudário". O piano de John Lenon. O sarcófago de Tutankamon.
Mas, Christian Dior, Jacques Fath, Pierre Balmain, realmente? Vestidos desses senhores estilistas fizeram e fazem parte da vida elegante de nossa cidade.
Parece piada. De mau gosto. Se fosse um Madame Grés, um Poiret datado, talvez.
A curadoria de Eva Perón: imagens de uma paixão é do arquiteto Alberto Pietrina.
Carlos von Schmidt
7.11.2002 1,00h
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