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Vengeance O livro que inspirou Spielberg


Vengeance e Munich

No artigo que escrevi sobre Munich, (na tela, Spielberg pisou na bola, Munich, 21 de fevereiro de 2006) disse que a historia se baseia “no livro de George Jonas, Vengeance, Vingança, adaptado por Spielberg. O livro é considerado um embuste, não confiável”.

Citei a declaração de David Kimche, homem do Mossad, depois de ver o filme: “É uma tragédia que uma pessoa do gabarito de Spielberg tenha baseado seu filme em um livro falso”.

Livro falso? A declaração do homem do Mossad ficou martelando em meu cérebro. Nos artigos que li sobre o livro havia prós e contras.

Decidi lê-lo para verificar se o livro era tão ruim quanto o filme. Dez dias depois de pedi-lo, recebi Vengeance com dois outros que solicitei. Abordam o mesmo tema: Striking Back de Aaron J. Klein e Massacre In Munich de Michael Bar-Zohar e Eitan Haber.

Li Vengeance e hoje não tenho a menor dúvida de que o livro está além, muito além do filme. Por incrível e absurdo que possa parecer, a impressão que fica é a de que Spielberg não leu Vengeance.
É Claro que leu. Talvez, por cima. Confiou na adaptação. No roteiro. Foi aí que se danou.

O livro de Jonas dá de dez a zero no filme. Estou careca de saber que livro é livro, filme é filme. Mas, sei também que quando se toma um livro como ponto de partida não se pode encará-lo parcialmente. Foi o que Spielberg fez. Munich do livro tem muito pouco. E isso não basta.

George Jonas nasceu em Budapest, Hungria, em 1935. Em 1956 emigrou para o Canadá. Escreveu quatorze livros. Colaborou com The Wall Street Journal, The Chicago Sun-Times e outras publicações. Em 1978 recebeu o Prêmio Edgar Allan Poe, pelo The Best True Crime.

A história que Jonas conta em Vengeance, The True Story Of An Israeli Counter-Terrorist Team, Vingança, A Verdadeira História de Uma Equipe Antiterrorista Israelita, surpreende.

Não é possível lê-la sem questioná-la. Ignorá-la, considerá-la um embuste, uma fraude bem montada e bem escrita é no mínimo pouco inteligente.
É evidente que muito dos fatos narrados não coincidem com outras versões. Porém, Isso não significa que não tenham acontecido.


Vingança


A verdade é que, quarenta e dois dias, depois de Munich a vingança começou.
Era a resposta de Israel ao sangrento fiasco do resgate dos atletas israelenses em Munich. A continuação de uma trágica história que não terminou no aeroporto de Fürstenfeldbruck, na noite de 6 de setembro , por volta da dez horas e quarenta e cinco da noite, com nove israelenses mortos, cinco palestinos e um alemão.

Em 16 de outubro, em Roma, o poeta, escritor e tradutor palestino, Wael Zwaiter, representante da PLO, Palestine Liberation Organization, Organização para Libertação da Palestina, foi assassinado ao entrar no prédio em que morava.

Quatorze balas calibre 22 foram encontradas em seu corpo. Jornais, rádios e televisões na Itália, Israel e Palestina noticiaram. Para a CIA, KGB, MI-5 e outras agências dedicadas à inteligência a mão do Mossad estava visível.
Para o Setembro Negro, o Fatah e outras organizações palestinas dedicadas ao terrorismo, não havia dúvida. A retaliação israelita começara.

Jonas, a partir do relato do líder do esquadrão anti-terrorista, denominado Avner, o mesmo do filme, conta no livro como tudo começou e terminou em 11 de novembro de 1974, em Tarifa na Espanha.

O relato é minucioso e os mínimos detalhes são descritos. No livro, tudo que no filme não aparece, ganha expressão e força.

Às vezes a realidade é tão flagrante que parece ficção. À medida que os antiterroristas eliminam os possíveis envolvidos, direta ou indiretamente com a ação do Setembro Negro em Munich, a história de Avner e seus quatro companheiros, parece um thriller de televisão.

Ao lê-la a noção de que se está lendo uma história real, desaparece. E tudo, apesar dos desmentidos e negações, aconteceu. Pode não ter sido exatamente como Jonas relatou, mas aconteceu. Não se trata de ficção.

As críticas do pessoal do Mossad, de Abu Daoud, um dos organizadores do atentado em Munich, são pertinentes.
Para o Mossad tudo não passa de uma história mal contada. Uma história que não aconteceu. O Mossad jamais admitirá que a operação Baionet existiu.
Aliás o nome oficial da operação, Baionet em nenhum momento é mencionado no livro.

Daoud, de um de seus esconderijos, possivelmente na Síria, em entrevista à Reuters por telefone, disse: “Eu li Vengeance. Está cheio de erros. Se alguém quer realmente contar a verdade sobre o que aconteceu, deveria conversar com as pessoas envolvidas, pessoas que sabem a verdade.“

Daoud discorda de como a história foi contada, mas não nega que aconteceu.

Publicado em 1984, Vengeance criou a maior celeuma. Agora em 2005 voltou às livrarias antes do lançamento do filme de Spielberg. Jonas no prefácio fala das entrevistas com Avner e com seis outras fontes indicadas por ele na Alemanha, França, Israel e Estados Unidos. Conta que verificou in loco, em vários países da Europa e do Oriente Médio, o palco da ação.

A descrição minuciosa desses locais, hotéis, restaurante, bares, avenidas e ruas, parque, estradas, aeroportos correspondem à realidade.Também conheço alguns.

Se Vengeance é uma armação, um blefe, o que não acredito ser, é um blefe de mestre. Pena que Spielberg não tenha explorado as duas faces da moeda. Verdade? Mentira? Seu filme com certeza seria melhor. O que não é.



São Paulo, 19 de março de 2006 21H30’ Carlos von Schmidt


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